CASO CLÍNICO 158 Rev Bras Hipertens vol.13(2): 158-161, 2006. Editor: Celso Amodeo Hiperaldosteronismo primário: aprendendo sempre para melhorar resultados Primary aldosteronism: learning every time for best results Felipe S. M. da Silva 1 , Flávia C. D’Eva 1 , Eduardo O. Aniceto Jr. 1 , Francisco C. F. de Sá 1 , Liliana Cárdenaz 1 , Raed A. N. Al Hamss 1 , Márcio G. de Sousa 2 , Oswaldo Passarelli Jr. 2 , Flávio A. O. Borelli 2 , Celso Amodeo 3 INTRODUÇÃO O hiperaldosteronismo primário, antes considerado causa rara de hipertensão arterial, tem atualmente sua prevalência posta em dúvida, haja vista os vários casos não diagnosticados, principalmente se levarmos em consideração os pacientes normocalêmicos que atingem, segundo alguns levantamentos, 20% a 50% desta população. Seu diagnóstico é realizado em três fases, assim constituí- das: rastreamento, confirmação e manobras para diferenciação etiológica. O exame inicial de rastreamento é feito pela relação aldosterona–atividade de renina plasmática. A relação maior que 25 ng/dl pode sugerir o diagnóstico na presença de clínica suspeita, levando a prosseguir a investigação. A comprovação do excesso de aldosterona deve ser feita especialmente nos casos subclínicos, normocalêmicos ou mes- mo em normotensos, mais comumente observados nos casos de hiperplasia da glândula. Com freqüência, utilizamos nesta etapa, como screening, os testes de supressão, como infusão de solução salina e dosagem de aldosterona ou com sobrecarga oral de sódio e administração de fludrocortisona. A confirmação é feita pelos métodos de imagem (tomografia computadorizada de abdome ou ressonância nuclear magnética) e, finalmente, a diferenciação etiológica é o último e não menos importante passo, pois dependemos dela para orientar a tera- pia mais apropriada, seja para os casos de hiperplasia adrenal idiopática ou adenoma. O adenoma de adrenal é mais comum em mulheres jovens (4:1), enquanto a hiperplasia afeta ambos os sexos, especial- mente idosos. As dosagens dos precursores da aldosterona e esteróides híbridos mostram-se habitualmente mais elevados no adenoma adrenal. Já os testes dinâmicos baseiam-se na afinidade e no número dos receptores de angiotensina II na glândula. Os tumores apresentam redução do número e afini- 1 Médicos residentes da Seção de Hipertensão Arterial e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. 2 Médicos da Seção de Hipertensão Arterial e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. 3 Médico chefe de Hipertensão Arterial e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia Correspondência para: Seção de Hipertensão Arterial e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Av. Dr. Dante Pazzanese, 500 – 04012-909 – São Paulo – SP; e-mail: fborelli@uol.com.br dade com esses receptores, ocorrendo o inverso na presença de hiperplasia. Assim, a aldosterona plasmática se eleva em resposta ao teste da postura, restrição de sódio e administração de diuréticos nos casos de hiperplasia adrenal idiopática. Os adenomas, em média, são pequenos, com 1 a 3 cm de diâmetro, facilmente detectáveis à tomografia computadori- zada de abdome (95% dos casos), realizada com cortes finos (3 mm). Nos casos em que exista conflito de resultados entre os achados bioquímicos e de imagem, pode-se indicar cateterismo venoso seletivo adrenal, prática esta realizada de rotina em alguns serviços. A lateralização na concentração de aldosterona deve estar presente e ser pelo menos dez vezes maior que a do lado contralateral. Na sua ausência, a possibilidade de hiperpla- sia adrenal bilateral idiopática é maior. RELATO DE CASO MHP, 43 anos, parda, doméstica, natural de Minas Gerais, divorciada, três filhos e cinco gestações. A paciente informou ser portadora de hipertensão arterial há 15 anos, estando em acompanhamento na Seção de Hipertensão Arterial e Nefrologia do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, desde maio de 1998. Por ocasião da primeira consulta na seção no ano de 1998, queixava-se de cefaléia holocraniana, pulsátil, intermitente, acompanhada de palpitações. Pressão arterial (PA): 240 x 150 mmHg; potássio sérico (K + ) de 2,5 mEq/l, em uso regular de maleato de enalapril 40 mg/dia, hidroclorotiazida 25 mg/dia e atenolol 100 mg/dia. Negava história prévia de etilismo, tabagismo, diabetes melito, dislipidemia ou coronariopatia. Relatava história familiar positiva para hipertensão arterial (pai e avô hipertensos) e por dez anos fez uso contínuo de anticoncepcional oral, suspenso em 1996. Recebido: 10/01/2006 Aceito: 30/01/2006