Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada Journal of Basic and Applied Pharmaceutical Sciences Rev Ciênc Farm Básica Apl., 2013;34(2):281-288 ISSN 1808-4532 Autor correspondente: Amanda dos Santos Teles - Centro de Pós-Graduação em Saúde Coletiva - Núcleo de Saúde Coletiva (NUSC) - Universidade Estadual de Feira de Santana - e-mail: amandateles_@hotmail.com Papel dos medicamentos nas intoxicações causadas por agentes químicos em município da Bahia, no período de 2007 a 2010 Amanda dos Santos Teles 1,* ; Renata Freitas de Araujo Oliveira 1 ; Thereza Christina Bahia Coelho 2 ; Graziela Vinhas Ribeiro 3 ; Waldenize Maria Lima Mendes 3 ; Pedro Nascimento Prates Santos 1 1 Departamento de Saúde, Curso de Ciências Farmacêuticas, Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS, Feira de Santana, BA, Brasil; 2 Departamento de Saúde. Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Núcleo de Saúde Coletiva (NUSC), Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS, Feira de Santana, BA, Brasil; 3 Secretaria Municipal de Saúde de Feira de Santana, Feira de Santana, BA, Brasil; RESUMO A intoxicação medicamentosa é um problema de grande relevância para a saúde pública. No Brasil, os medicamentos são os principais agentes responsáveis por intoxicações humanas. Este artigo objetivou descrever o peril e a evolução das intoxicações no município de Feira de Santana, Bahia, nos anos 2007 a 2010, e analisar a morbimortalidade causada por medicamentos. Neste estudo transversal, com caráter descritivo, foram analisados 631 casos registrados no SINAN. As variáveis utilizadas foram: sexo; faixa etária; raça; escolaridade; ocupação; evolução do caso notiicado; zona de ocorrência da intoxicação; circunstância determinante para a ocorrência da intoxicação; tipo de exposição; frequência deste agravo; e tipo de unidade notiicadora. Constatou-se que a intoxicação por medicamentos representou 33% das intoxicações, seguida de “raticidas” (18%), sendo a “tentativa de suicídio”, circunstância responsável, em 2010, por 81% das notiicações. O sexo ‘feminino’ apresentou o maior número de casos registrados, bem como as crianças de 1 a 4 anos e os adultos jovens. A letalidade observada em Feira de Santana foi muito maior do que a média regional e nacional, excetuando-se o ano de 2009. A Vigilância em Saúde deve priorizar ações educativas, preventivas e intersetoriais, que assegurem o uso correto de medicamentos e melhorem seu impacto na saúde, bem como investir na sensibilização continuada dos proissionais da Atenção Básica para melhorar a notiicação deste importante agravo. Palavras-chave: Vigilância Epidemiológica. Uso de medicamentos. Toxicologia INTRODUÇÃO A intoxicação por agentes químicos é um problema de grande relevância para a saúde pública. Em países desenvolvidos como Alemanha, França, Itália, Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, os medicamentos correspondem de um terço até a metade dos casos de intoxicação registrados (Matos et al., 2002). No Brasil, os medicamentos reassumiram a posição de principal agente tóxico em 1994 (Bochner & Souza, 2008) e, segundo o último relatório do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) em 2009, mantêm essa posição sendo responsáveis por 26,47% das intoxicações humanas, com cerca de 17,36% resultando em casos de morte (Fundação Oswaldo Cruz, 2011). Várias circunstâncias podem estar envolvidas em casos de intoxicações medicamentosas. Dentre as principais citam-se: as acidentais, as tentativas de suicídio e abuso (principalmente entre adolescentes e adultos), e os erros de administração (Bochner, 2006; Bortoletto & Bochner, 1999; Matos et al., 2002). O comportamento suicida tem crescido no mundo (Bernardes et al., 2010), e, muitos desses eventos abrangem o uso de medicamentos, como demonstra o estudo de Botega et al. (1995), em que 60% das tentativas de suicídio envolveram abuso de medicamentos. Os grupos populacionais que, em geral, estão frequentemente relacionados às intoxicações medicamentosas são as mulheres e as crianças (Bertasso- Borges et al., 2010; Hoshino et al., 2009; Silva, 2009), especialmente, os menores de cinco anos que representam, aproximadamente, 27% das vítimas de intoxicação por medicamentos (Fundação Oswaldo Cruz, 2011). Nesse sentido, é possível observar a importância do problema que, apesar de requerer atenção, ainda está subestimado devido à considerável subnotiicação que afeta os serviços de saúde e a tendência do registro de casos agudos. O Sistema de Informações Tóxico-Farmacológicas no Brasil ainda é bastante incipiente, e para a uma real magnitude do problema é necessário atingir um nível