A música e a prática da memória – uma abordagem etnomusicológica Suzel Ana Reily Resumo Nas últimas décadas, vem surgindo um número crescente de estudos, particularmente nas áreas das ciências cognitivas, humanas, sociais e historiográficas, que visa compreender a relação entre a música e a memória. Aqui discutem-se as abordagens principais referentes ao estudo da memória, notando que, de modo geral, a memória é apresentada não como um conjunto de conhecimentos e fragmentos estáticos, mas como uma prática, isto é, como uma forma socialmente consequente de articular o passado ao presente. Partindo da visão da memória enquanto prática, o texto passa a explorar o potencial analítico desta perspectiva para a etnomusicologia, através da apresentação de uma série de exemplos etnográficos em que diferentes esferas da memória são mobilizadas durante a performance musical. Palavras-Chave: prática da memória, teoria etnomusicológica, passados, cognição, performance Abstract Over the past few decades, there has been a growing number of studies in areas encompassed by the cognitive sciences, the humanities, the social sciences and historiography that aim to understand the relationships between music and memory. This piece looks at the main approaches to the study of memory, noting that, for the most part, this literature presents memory not as a collection of static bits of knowledge or fragments, but as practice, that is, as a socially consequential means of articulating the past to the present. Drawing on this perspective, the text proceeds with an exploration of the analytic potential of this orientation through the presentation of a series of ethnographic examples in which different spheres of memory are mobilized during musical performance. Keywords: practice of memory, ethnomusicological theory, pasts, cognition, performance De acordo com Maurice Halbwachs (1992), nossas memórias são de suma importância para o processo da comunicação humana. Poderíamos dizer também que sem memória não poderíamos fazer música. Para constatarmos isto, contemplemos, por um instante, as múltiplas maneiras em que mobilizamos nossas memórias na produção de uma canção. Em primeira instância, voltamo-nos às nossas memórias individuais, posto que precisamos lembrar a melodia, o ritmo e o texto da música, informação armazenada em nosso cérebro; também precisamos mobilizar nossas memórias musculares associadas à emissão dos sons, tais como o uso do aparato vocal, da respiração e demais órgãos corporais envolvidos no canto. Mas uma performance só existe no tempo e no espaço; logo, existe num contexto social. O momento do canto, portanto, evoca memórias diversas referentes ao contexto, como experiências passadas em que cantamos esta ou outra música ou em que ouvimos outra pessoa cantar. Podemos nos sentir referidos a um mundo musical que associamos àquela música e/ou ao seu estilo. Algum aspecto da canção pode também nos remeter a passados bastante distantes das nossas experiências imediatas, como o tempo dos antepassados ou o tempo mítico dos deuses. Com efeito, a corrente de associações que