Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência – 1º quadrimestre de 2015 – Vol. 8 – nº 1 – pp.45-56 Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência – 1º quadrimestre de 2015 – Vol. 8 – nº 1 45 Clínica Transdisciplinar: Afirmação da multiplicidade em Deleuze/Spinoza Cristina Rauter * O que temos chamado de clínica transdisciplinar é uma construção que emerge da atitude do clínico, do Psicólogo ou Psicanalista, de explorar as regiões de vizinhança da clínica com outros saberes para, a partir daí, construir suas estratégias. A função do clínico é a de catalisar a produtividade do inconsciente, numa concepção de inconsciente que possui forte inspiração spinozista. Aumentando a possibilidade que estabeleçamos novos e variados agenciamentos, o que se espera é potencializar a vida, catalisar os processos caósmicos, criadores, revolucionários, valendo-nos de múltiplos campos do saber, incluindo perspectivas do campo da arte, da filosofia, entre outros muitos campos a partir dos quais possamos fazer funcionar estratégias clínicas. O coletivo e a multiplicidade, enfatizados na leitura de Spinoza feita por Deleuze, serão pontos de apoio nessa construção. Para Deleuze, Spinoza é o “príncipe dos filósofos”, aquele que com sua roupa de revolucionário napolitano 1 traz para o campo da filosofia a perspectiva da multidão. A perspectiva transdisciplinar é uma perspectiva da multiplicidade. Quanto mais encontros fizermos, tanto no que diz respeito ao atributo pensamento quanto ao atributo extensão, mais potentes seremos. Quanto mais pudermos entrar em contato com o novo e o diferente, melhor pensaremos e agiremos. Amar é retirar do plano da multidão no qual ele está inserido o objeto amado, numa operação de redução e individualização, para depois redescobrir nele a multiplicidade que o compõe. Não é “identificar-se” com o parceiro o que nos faz amá-lo. São os pequenos mundos desconhecidos que o objeto amado encerra que constituem a vertigem que ele nos provoca e que nos leva para uma viagem fora de nós mesmos: “Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro, e vejo que * Professora Titular do Departamento de Psicologia da UFF, Niterói, RJ, Brasil. Contato: rautercristinamair02@gmail.com 1 Deleuze, G. Espinosa e a Filosofia Prática. São Paulo: Escuta, 2002, p. 13.