DE MAGIA (MS. LAUD OR. 282, BODLEIAN LIBRARY): REPRESENTAÇÃO GRAFEMÁTICA E TRANSCRIÇÃO Aléxia Teles Duchowny 1 Resumo: Análise da escrita do códice De magia (Ms. Laud Oriental 282, Bodleian Library), guia astrológico aljamiado em língua portuguesa e caracteres hebraicos, datado do século 15. Além de feita a classificação da escrita, analisa-se a representação grafemática do manuscrito - grafemas simples, em nexo, dígrafos e trígafos, sinais diacríticos, de valor numérico, de pontuação, de correção e anulação - e propõe-se um sistema de transcrição coerente e detalhado dos grafemas hebraicos em latinos. Palavras-chave: aljamia; crítica textual; grafemática; manuscrito; português arcaico; sistema de escrita. Introdução De magia (Ms. Laud Oriental, 282), códice encontrado na Bodleian Library, em Oxford, Inglaterra, é um exemplo da complexidade que envolve os manuscritos medievais em língua portuguesa, em especial aqueles em caracteres hebraicos. Trata-se de um guia astrológico em prosa, em português arcaico do século 15, composto de 416 fólios em papel 2 . Apenas a parte feita pelo primeiro punho, que vai até o fólio 84v, será analisada, tendo-se como base a transcrição de Duchowny (2007). Propõe-se, neste artigo, uma investigação sobre a escrita aljamiada em geral e sobre o sistema grafématico do códice, entendendo-se a grafemática como o estudo linguístico dos sistemas de escrita baseado na descrição de seus elementos e nas regras das possíveis combinações desses elementos (Coulmas, 1999). Assim, após a conceituação de “aljamia”, a escrita será classificada e os grafemas serão organizados e analisados na seguinte ordem: grafemas simples, dígrafos, trígrafos, sinais diacríticos e numéricos. Também recebem atenção os sinais de pontuação e os de correção/anulação. Espera-se trazer novos elementos para a discussão acerca da relação entre fonologia e grafemática não só dos textos aljamiados em língua portuguesa, mas de toda língua com sistema de escrita. Caracterizar e identificar as diferenças entre os vários tipos de escrita não é, entretanto, tarefa simples, porque envolve os mais variados aspectos (morfológicos, estilísticos, entre tantos outros). Segundo Beit-Arié (1972: 46), os livros judaicos medievais eram produto de um escriba profissional ou de um homem culto que copiava o manuscrito para uso pessoal, ao contrário dos livros cristãos, elaborados nos scriptoria. O mesmo autor completa: we have no information about any kind of institutional copying and production of Mss. These facts, together with other historical conditions, explain the absence of an established typology of medieval Hebrew book-scripts until now, and challenge us not only to search for synchronic and diachronic typology, but also to try to discover non-institutional centers of copying, schools and 1 Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. 2 Para uma contextualização histórico-cultural de manuscritos medievais judaicos em geral, ver Duchowny (2010a). Para uma descrição codicológica do De magia, ver Duchowny (2010b).