O Atraso e a Necessidade: Jornalismo científico no Brasil Marcelo Leite “Atrasos têm conseqüências funestas”, ensina Shakespeare pela boca de Renato, rei de Nápoles, quando este avista o sinal de Joana D’Arc sobre as muralhas de Ruão, no terceiro ato do drama histórico Henrique VI. “Delays have dangerous ends.” O que podem no entanto estar fazendo Shakespeare, Joana D’Arc, o rei de Nápoles e os séculos 15 e 16 numa conferência sobre jornalismo científico no Brasil do século 21, encomendada ao ganhador do Prêmio José Reis, a mais prestigiada láurea – em verdade, a única – desse campo tão restrito de atuação jornalística? Que paire algum mistério até o desfecho, como é de lei em toda encenação, sobretudo quando o que está em foco é a realidade, drama verdadeiro do jornalismo. Por ora é o caso de informar somente que a citação se encontra entre as 19 que abrem a versão de 1992 do Novo Manual da Redação da Folha de S.Paulo, que tive a oportunidade de editar na companhia de Mario Vitor Santos, também ele um ex- ombudsman do jornal, e de Hélio Schwartsman, ainda hoje seu editorialista. “Atrasos têm conseqüências funestas.” Guardem esta frase. Shakespeare, de resto, é o único autor que comparece com duas citações naquelas páginas de abertura do Novo Manual. A outra é também muito apropriada para o ofício do jornalismo: “Um relato honesto se desenrola melhor se o fazem sem rodeios”. Não tendo seguido seu sábio conselho, ao abrir esta conferência com o que num jornal diário seria merecidamente identificado como um autêntico nariz-de-cera, passemos diretamente ao ponto: é um tanto sintomático da situação atual da pesquisa científica na esfera pública que a maior premiação de jornalismo científico contemple neste ano um jornalista free-lancer. Não vai aqui desmerecimento algum à classe dos free-lancers, da qual no fim das contas faço parte. É preciso contudo dizer que, numa cena cultural e editorial subdesenvolvida como é a brasileira, nenhum jornalista é free-lancer por escolha própria – certamente não entre os que se dedicam a cobrir ciência. As vagas de editor ou de repórter especializados no assunto são poucas, assim como são raras as publicações que fazem jornalismo científico para valer, quer dizer, que se esfalfam para tornar interessante o que é importante, e não para tornar importante o que só é interessante. Quem agarra um desses empregos disputados tem poucas chances de fazer carreira; os mais ambiciosos acabam se bandeando para editorias ou publicações mais promissoras, em que as vagas não possam ser contadas com os dedos de uma única mão, muitas vezes nem com a maioria deles. Atrasos, aqui, como nas muralhas de Ruão, têm conseqüências funestas. Insistir na escolha e reorientar a carreira para o mercado de free-lancers pode ser uma oportunidade, porém. Longe das minúcias onerosas e da pressão dos fechamentos de