XVII Encontro Regional de História Conhecer, Pesquisar e Ensinar História De 18 a 23 de julho de 2010 Página1 HISTÓRIA E FICÇÃO: NOTAS PARA UMA ABORDAGEM NÃO-DICOTÔMICA Luiz Arnaut * Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Renata Moreira ** Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) E se, momentaneamente, por uma alteração não-programada da lógica que rege nossas relações, suspendêssemos as referências e você, leitor, já não pudesse contar com um sistema de enunciação para dar a certa história o estatuto de real ou ficcional? E se, entremeado a essa suspensão, você lesse: [...] Em uma freguezia do município de Vassouras, apresentaram-se ao vigario para casar trez casaes de libertos. O sacerdote collocou-os em linha e casou-os todos ao mesmo tempo. Depois da finda a cerimônia, os recem casados reconheceram que o vigario havia errado, trocando dous daquelles pares; voltaram á egreja para o sacerdote concertar o erro, porem este respondeo que o que estava feito estava feito e não havia mais meio de reparar o engano. Sahiram elles descontentes e ao chegarem em uma venda proxima á freguezia, desmancharam a differença e cada um levou comsigo a mulher que desejava, ficando assim adulterinos. Que estatuto você atribuiria ao recém-narrado? Um dos problemas que sempre reaparecem na discussão fronteiriça acerca dos discursos ficcionais e/ou históricos consiste em delimitar até que ponto uma dicção se interpõe, adentra e se imbrica no modus operandi da outra e, por outro lado, quais suas diferenças cabais. Em palavras diversas: o que diferencia e o que aproxima essas duas práticas ou – como quer Luiz Costa Lima – formações discursivas? 1 Sabemos que a relação “história e ficção”, dada a polissemia dos dois vocábulos, pode ser pensada em diferentes vertentes. O termo “história”, em certa acepção, é visto como equivalente a real, o que colocaria a articulação entre os termos do binômio na chave da real * Professor do Departamento de História da UFMG. Doutorando em História e Culturas Políticas (UFMG). Coordenador do Grupo de Estudo e Trabalho em História e Linguagem. ** Mestre em Letras (UFC). Doutoranda em Estudos Literários (UFMG) e bolsista do CNPq. Pesquisadora do Grupo de Estudo e Trabalho em História e Linguagem. 1 LIMA, Luiz Costa. Perguntar-se pela escrita da história. Varia História, Belo Horizonte, v. 22, n. 36, p. 3295, jul./dez. 2006.