Ars Moriendi circa 1450: a preparação para o post-mortem. PATRÍCIA MARQUES DE SOUZA 1 “Em tudo o que fizeres, lembra-te do teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7, 40). Esta passagem bíblica assumiu um caráter de máxima nos séculos XIV e XV: a Igreja e, sobretudo, as ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos), exortavam os fiéis para a necessidade constante de reflexão e preparação para o momento da morte, através da pregação 2 dos sermões em língua vernácula e na contemplação de imagens religiosas. Com efeito, a partir do século XIV, acreditava- se que o fiel iria rever sua vida inteira antes da separação do seu corpo e de sua alma e, que as atitudes realizadas neste momento final, seriam fundamentais para dar conclusão à sua vida. Neste período, portanto, lembrar-se da morte é, sobretudo, refletir e preparar-se para este momento. O recorte temático desta pesquisa se refere à grande importância dada à hora do trespasse, vista como um momento de tensão, na sociedade cristã medieval. A insistência em lembrar-se do fim foi uma das formas encontradas pelo clero para que a morte fosse vista como algo iminente e concreto tornando necessária uma autoanálise e mudança de atitudes por parte do fiel. Neste sentido, este trabalho se propõe a realizar uma análise iconográfica referente à representação dos minutos finais e das cinco tentações e boas inspirações que antecedem o momento do transitus, no gênero de livro Ars Moriendi (Arte de Morrer) 3 que surgiu no século XV. Além disso, pretende-se elucidar as funções dessas imagens que contemplam o tema do bem morrer. Entre o Inferno e o Paraíso: as novas configurações da geografia do além-cristão. O tema da morte é central na cultura cristã, pois a Encarnação do Cristo tinha como objetivo reparar o homem da queda, causada pela desobediência dos primeiros viventes, Adão e Eva. Com efeito, a grande vitória do Cristo foi vencer a morte. Depois de seu sacrifício pela humanidade e sua ressurreição, Jesus trouxe novamente a possibilidade de salvação para os homens. Neste sentido, é 1 Mestranda em História do Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2 A pregação medieval reunia, nas principais datas do calendário cristão, os fiéis em torno da palavra que busca a salvação individual e coletiva. Numa sociedade de maioria illitterati (iletrados), os sermões eram o meio básico de instrução dos leigos. Na maioria das vezes, os pregadores atraíam multidões consideráveis, transformando praças públicas e monumentos em locais de pregação. A partir do século XIII, com o surgimento das ordens mendicantes assiste-se a emergência da pregação popular, quer dizer destinada ao povo, paralelamente ao aprofundamento da pregação aos clérigos. Assim, era possível ensinar a um maior número de pessoas a história sagrada, vista como garantia de salvação desde que compreendida, memorizada, e, sobretudo, interiorizada. 3 Será utilizada a edição latina, impressa e fac-símile de c. 1450 da Ars Moriendi e que contém onze xilogravuras. O livro atualmente se encontra no British Museum, em Londres.