Soares, I.V.P. ; Funari, Pedro Paulo . Arqueologia da resistência e direitos humanos. Evocati Revista, v. 2014, p. 1-7, 2014. Arqueologia da resistência e direitos humanos Inês Virgínia Prado Soares 1 Pedro Paulo A. Funari 2 1. Breves considerações: Arqueologia para os Direitos Humanos ou vice-versa? Lidar com a verdade sobre graves violações em massa de direitos humanos significa iluminar a violência do Estado ou de grupos; violência esta muitas vezes silenciada pela narrativa oficial e, outras vezes, ignorada ou até desconhecida pela maioria da sociedade. O esclarecimento desses acontecimentos nefastos depende da conjugação de forças sociais, econômicas e políticas com um aparato instrumental adequado, no qual se incluem as pesquisas arqueológicas, e mais especificamente, a Arqueologia da repressão e da resistência. O trabalho arqueológico é uma tarefa que está intrinsecamente ligada aos Direitos Humanos, tanto para a revelação da verdade, como a compreensão dos atos violentos e para (re)formulação da memória coletiva, com novos componentes narrativos. No Brasil, no campo da Arqueologia da repressão e da resistência, estudos sobre a materialidade da violência que atingiu comunidades quilombolas, povos indígenas e outros grupos perseguidos, injustiçados ou hipossuficientes, como os presos políticos desaparecidos, passam ser desenvolvidos de modo mais constante a partir da redemocratização, em meados da década de oitenta. Nesse capítulo abordaremos as conexões entre Arqueologia e Direitos Humanos, sob o enfoque da importância da arqueologia para lidar com o legado de violência da ditadura militar brasileira (1964-1985). Com a Arqueologia, é possível estudar a materialidade dos locais e os instrumentos utilizados para prática dessas graves violações de direitos humanos, incluindo provas científicas que contribuam para a reconstrução do cenário do crime, para a indicação dos responsáveis pelos crimes (FONDEBRIDER 2008) e para a elaboração de narrativa que permita a inclusão de outros atores na memória coletiva (HABER 2008) e, ainda, para a ressignificação de 1 Mestre e Doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Integra o Grupo de Pesquisa "Arqueologia e Ecologia Histórica dos Neotrópicos" do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e é pesquisadora do "Laboratório de Arqueologia dos Trópicos" do MAE/USP. Procuradora da República em São Paulo. 2 Professor Titular do Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp.