D urante as últimas décadas, a América Latina tem passado, em larga escala, por uma série de transformações sociopolíticas. No entanto, a natureza e profundidade dessas mudanças são frequentemente exageradas ou mal interpretadas. Neste artigo, argumentamos que as continuidades têm sido tão significativas como as mudanças. Para fundamentá-lo, começamos por examinar três elementos de continuidade: o nacio- nalismo, o populismo e a estrutura económica baseada na exportação de matérias-primas. Em segundo lugar, analisamos três elementos de mudança: a introdução expansiva da democracia, a mobilização política de identidades étnicas, e a adopção de estratégias de inserção internacional cada vez mais discrepantes. As conclusões sugerem que, dada a existência de uma distribuição heterogénea tanto das continuidades como das mudan- ças entre os diferentes países, as perspectivas para a região são de crescente fragmen- tação e divergência. NACIONALISMO Nos últimos anos, candidatos situados à esquerda do espectro ideológico venceram a maioria das eleições presidenciais na América Latina. Após uma década de políticas que favoreciam o «capital», muitos observadores não acreditam que essa viragem para um discurso mais sensível às necessidades dos menos favorecidos seja surpreendente. No entanto, tem-se tornado bastante claro que este refluxo ideológico não possui somente uma variante mas, pelo menos, duas. Por um lado, existe um grupo de países governado por partidos internacionalistas, de perfil social-democrata e tom moderado, e, por outro, um grupo de governos mais orientados pelo nacionalismo do que pela esquerda, con- siderando que prometem representar a nação ou o povo como um todo, com um perfil mais conflituoso e tom radicalizado. Não por acaso, os exemplos mais conhecidos são caracterizados por uma bonança nos preços dos seus recursos naturais exportáveis 2 . Exemplos do primeiro incluem o Brasil, o Chile e o Uruguai; exemplos do segundo são a Bolívia, o Equador e a Venezuela. Em 2006, os peruanos tiveram de escolher entre uma opção social-democrata, representada por Alan García, e uma nacionalista, liderada PORTUGAL, BRASIL E A AMÉRICA LATINA Fragmentação e divergência na América Latina 1 Andrés Malamud relações internacionais dezembro : 2009 24 [ pp. 061-073 ] 061