1 ANIMAÇÃO NO CONTEXTO IMAGÉTICO E VIRTUAL 1. A IMAGEM NO TEATRO, NA PINTURA, E NO CINEMA No teatro a ação da cena é real, o contato com o público é direto onde essa receptividade muitas vezes influencia a atuação do ator , o ambiente é aberto (do tamanho do palco), a cenografia é material ou muitas vezes não existe e conta com a memória imagética do espectador para completá-la. Para se destacar uma ação, no teatro utilizam-se artifícios de iluminação ou cenografia - não há close-up. Havendo algum erro do ator ou acidente em cena, não há como evitar que a plateia o veja. A “mentira” contada ao público, no momento da encenação, é verdadeira e acontece no mesmo plano do observador: o plano da materialidade. Como Walter Benjamin observa, "na época das técnicas de reprodução, o que é atingido na obra de arte é a sua aura" 1 , isto é, com a reprodução a imagem perde a sua aura. Mas o espetáculo teatral, sempre único, possui uma “aura”. A pintura, o “cinema vivo” 2 e a animação utilizam um “quadro”, uma área delimitada onde se representa e se apresenta a cena. Na pintura é a moldura, e nos outros casos é a área de projeção da imagem. Para Bazin: "A tela não é uma moldura como a do quadro, mas um esconderijo que só deixa ver uma parte do acontecimento" 3 , como uma janela. Porém, como a moldura, também há a concentração da atenção do público, e a ação acontece em um outro plano fora do alcance material de quem vê. É uma fronteira intransponível: a da realidade e a “não realidade” apresentada pela “janela” da tela ou da projeção. Essa irrealidade, por semelhança, propicia a criação de um vínculo com as imagens mentais, lembranças, fantasias do público, mais facilmente que a realidade da encenação teatral. O espetáculo teatral não consegue ser uma reprodução convincente da vida porque o próprio espetáculo faz parte da vida, e de modo muito visível; há intervalos, o ritmo social, o espaço real do palco, a presença real do ator; o peso disso tudo é demais para que a ficção desenvolvida pela peça seja percebida como real; a cenografia, por exemplo, não tem o efeito de criar um universo diegético, não passa de uma convenção dentro do próprio mundo real 4 . A imagem (cinematográfica, cinema vivo ou animação) remete o observador a uma viagem interna, de acordo com sua memória imagética e vivência emocional - gerando uma reação, de identificação ou repulsa. Mas não há a interação desta reação do público com a ação representada e o processo de comunicação se estanca no observador, provocando um 1 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. IN: GRÜNEWALD, José L. (Sel). A idéia do cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969, p. 64. 2 O termo “cinema vivo” será utilizado para se referir aos filmes live-action (ficção ou documentário). 3 BAZIN apud GRAÇA, Marina E. Entre o olhar e o gesto: elementos para uma poética da imagem animada. São Paulo: Editora Senac, 2006, p. 70. Artigo publicado nos Anais do 16. Encontro dos Alunos do PPGAV/EB/UFRJ Interações nas Artes Visuais, realizado na Escola de Belas Artes da UFRJ e no Museu Naval/RJ, de 23 a 27 de novembro de 2009; e apresentado em 27/11/2009.