I I I Simpósio Nacional Discurso, I dentidade e Sociedade (I I I SI DI S) DI LEMAS E DESAFI OS NA CONTEMPORANEI DADE O NASCI MENTO DO COMPUTADOR E A UTOPI A DO CONHECI MENTO LI VRE 1 Aracele Lima Torres 2 O breve século XX, assim o chama o renomado historiador Eric Hobsbawm. Século de mudanças “tão profundas quanto irreversíveis” (2009:18). Recordado e contado através dos horrores das guerras e de muitas outras atrocidades que as acompanharam, e que se tornaram emblemas da decadência do homem moderno. Neste breve século o horror veio em decorrência de um modo de guerrear novo, mais cruel e mais devastador. As guerras do século XX não lembravam, nem de longe, as guerras ocorridas anteriormente: até 1914 não havia ocorrido ainda guerras de proporções mundiais; as guerras anteriores não tinham abatido milhões em número de mortos e nem utilizaram- se de armas de destruição em massa tão devastadoras como as que vimos no século que se passou. E, o principal, as guerras anteriores a 1914 não tinham como alvos as populações civis. O combate no século XX deixou de ser uma simples questão de corpo a corpo (BRETON, 1991:124) e de ataques a militares. Como afirma Hobsbawm, o número de civis mortos nestas guerras superou historicamente o número de militares (2009:23). Mas porque começar este artigo, que tem como tema a relação entre o nascimento do computador e a defesa de um conhecimento livre, falando sobre o caráter das guerras do século XX? Simples. Não dá para pensar este século sem considerarmos as guerras que marcaram direta ou indiretamente os homens que nele viveram. O século XX “viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os canhões se calavam e as bombas não explodiam” (ibidem:30). E foi em função da guerra que os primeiros computadores surgiram, de modo que não podemos pensar o desenvolvimento do computador sem considerar o clima de guerra no qual esta ferramenta estava envolvida. Esse período de guerra teria preparado, segundo afirma Philippe Breton, o terreno para a utopia da comunicação. Ele defende que há conexões entre a crise profunda do século XX, de que as duas grandes guerras mundiais são expressão mais visível, e o aparecimento e posterior sucesso da utopia da comunicação, que agora é constitutiva da nossa modernidade (1994:8). 1 Este trabalho é parte de um trabalho maior que está sendo desenvolvido sob a orientação do prof. Francisco Assis de Queiroz e com o apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), cujo título é “Tecnologias da inteligência e da liberdade: uma história sobre o Projeto GNU e a defesa do conhecimento livre no contexto das tecnologias digitais”. 2 Graduada em História pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduanda em História Social pela Universidade de São Paulo.