CAPÍTULO 2 RE-CONCEPTUALIZAR PÚBLICO E PRIVADO – SOCIABILIDADE E VIDA CÍVICA NA ERA DA INTERNET Gil Baptista Ferreira Introdução É um elemento constante dos estudos da sociedade, ampliado pelo surgimento abrupto dos novos media nas últimas duas décadas: o debate sobre as transformações nas relações entre a vida pública e a vida privada, que, estritamente enredadas nas formas e estratégias de comunicação hoje disponíveis, se encontram de igual modo no âmago do desenvolvimento das sociedades modernas. Historicamente variável e de fronteiras imprecisas, a distinção entre público e privado, longe de assinalar um fenómeno singular e localizado, traduz antes vários processos de organização das sociedades ocidentais. Norberto Bobbio (1988: 13) chama-lhe, precisamente, a “grande dicotomia”, por se tratar de um binómio fundador que subsume muitos outros, de fonteiras indeléveis e intercambiáveis. Muito embora persistam enquanto categorias fundamentais da vida social moderna, público e privado mantêm problemática a sua deinição, tanto em termos teóricos como práticos. O seu tratamento historicamente dicotómico deu forma a muitos aspetos da vida social, desde as relações de género ao desenvolvimento, por exemplo, de zonas de habitação puramente residenciais (privadas), geograicamente separadas da esfera (pública) do trabalho. Recobrem simultaneamente lugares ou espaços físicos (praças, salões, cafés, a própria habitação), mas igualmente os princípios constitutivos da ação política e identitária que neles se desenrolam ou podem desenrolar. Designam ao mesmo tempo realidades empíricas (desde a sociabilidade burguesa do século XVIII às recentes formas de apresentação da identidade nas redes digitais) e princípios normativos que se sobrepõem às singularidades históricas e se reletem na apreciação dos