1 Filosofia, Cinema e Homossexualidade: Interpelações do filme Um estranho no lago Marcelo Santana Ferreira 1 Todos os dias, diferentes homens adultos se encaminham a um lago, na França, para se banharem e, talvez, se aventurarem em um bosque para o encontro de parceiros sexuais. Um dos homens apenas se senta mais distante dos grupos mais afoitos e observa. De férias, ele não sabe que morrerá por amor. De férias, ele não sabe que amará um homem e nunca dividirá um leito com ele, nem muito menos se dirigirá ao bosque para fazer sexo. Algumas décadas separam o filme “ Um estranho no lago” do francês Alain Guiraudie do desenvolvimento de racionalidades técnicas no mundo ocidental em torno da AIDS, que transitaram de um diagnóstico fatalista das práticas sexuais minoritárias como centro propagador do vírus HIV para imagens mais realistas e democráticas da epidemia: questão de políticas públicas que evoca velhos modelos morais e religiosos na compreensão da diversidade sexual e das práticas de prazer. Atualmente, o filme parece se encontrar muitas décadas distante do que se recolhe em redes sociais e no binarismo de posições em torno da homossexualidade masculina no Brasil. Primeiro, por se tratar de um documento corajoso e ousado da corte masculina, abreviada de contornos românticos ou de postergações. Segundo, por reintroduzir signos da paixão e do amor romântico em contexto de puro risco, acaso e flerte com a morte. Seria mesmo escandaloso para os militantes mais efusivos que o filme de Guiraudie pudesse servir de referência para uma reflexão sobre a relação entre filosofia, cinema e homossexualidade, uma vez que uma de suas personagens principais não apenas testemunha um assassinato no lago, como se apaixona pelo assassino. Além disso, os frequentadores do lago parecem não se importar com a ausência do rapaz assassinado e com a incômoda presença de sua toalha, de suas roupas e do seu chapéu na orla. Ninguém contou com a falta da vítima? Ninguém se incomodou com o fato de 1 Doutor em Psicologia Clínica pela PUC/RJ. Professor de Psicologia Social do Departamento de Psicologia da UFF/Niterói. Professor do Programa de pós-graduação em Psicologia (Estudos da Subjetividade) da UFF. Editor de Fractal: Revista de Psicologia. Endereço eletrônico: mars.ferreira@yahoo.com.br