JULIA KRISTEVA PODERES DO HORROR ENSAIO SOBRE A ABJEÇÃO 1 I – APROXIMAÇÃO DA ABJEÇÃO Não há fera que não tenha um reflexo do infinito; Não há pupila abjeta e vil que não toque O raio vindo do alto, às vezes terno e às vezes feroz V. Hugo, A lenda dos séculos. Nem sujeito, nem objeto Há, na abjeção, uma dessas violentas e obscuras revoltas do ser contra aquilo que o ameaça e que lhe parece vir de um fora ou de um dentro exorbitante, jogado ao lado do possível, do tolerável, do pensável. Está lá, bem perto, mas inassimilável. Isso solicita, inquieta, fascina o desejo que, no entanto, não se deixa seduzir. Assustado, ele se desvia. Enojado, ele rejeita. Um absoluto o protege do opróbrio, com orgulho a ele se fia e o guarda. Mas, ao mesmo tempo, mesmo assim, esse elã, esse espasmo, esse salto é lançado em direção de um outro lugar tão tentador quanto condenado. Incansavelmente, como um bumerangue indomável, um polo de atração e de repulsão coloca aquele no qual habita literalmente fora de si. Quando eu sou invadida pela abjeção, esse emaranhado feito de afetos e de pensamentos, que assim chamo, não possui, propriamente falando, um objeto definível. O abjeto não é um ob-jeto diante de mim, que eu nomeio e imagino. Não é muito menos esse ob-jetiado [ob-jeu], 2 pequeno “a” em fuga indefinidamente na busca sistemática do desejo. O abjeto não é o meu correlato que, oferecendo-me um apoio sobre qualquer um outro ou qualquer coisa outra, permite-me ser, mais ou menos, destacada ou autônoma. Do objeto, o abjeto tem somente uma qualidade – aquela de se opor ao eu 1 Kristeva, Julia. Pouvoirs de l’horreur: Essai sur l’abjection. Paris: Éditions du Seuil, 1980, “Approche de l’abjection”, pp. 07-27. Tradução de Allan Davy Santos Sena (allandavy@hotmail.com ). Traduções cotejadas: Kristeva, Julia. Poderes de la perversión: Ensayo sobre Louis-Ferdinand Céline. Traducción Nicolás Rosa. México: Siglo XXI Editores, 2006 / Kristeva, Julia. Powers of horror: An essay on abjection. Translated by Leon S. Roudiez. New York: Columbia University Press, 1982. 2 Na terminologia de Lacan, objetalidade refere-se ao campo das relações objetais, como uma relação a objetos distintos ao eu, já objetidade refere-se ao objeto a, causa do desejo (N. do T.).