Boca de Ouro e o Rio de Janeiro de Nelson Rodrigues Adriana Facina 1 Nelson Rodrigues foi um dos grandes inventores do Rio de Janeiro. Afirmo isso porque vejo a literatura como parte da construção social da realidade. Ela consolida imaginários, cria personagens que se tornam parte de nossas vidas, orienta nossos olhares e percepções do mundo. Compreendê-la como reflexo da realidade é simplificar a complexidade de seu trabalho com a linguagem que inscreve a escrita em nossas mentes, nossos corpos e nossos cotidianos. A cidade que sentimos e vivemos não é apenas aquela das nossas percepções imediatas. É também o Rio de Janeiro que imaginamos, lemos, vemos na tela do cinema, ouvimos nas músicas que cantam a cidade. A obra de Nelson Rodrigues é fonte de duradouras e poderosas fabulações sobre o que é ser carioca. Suas histórias e personagens saem dos textos e chegam nas telas de cinema e televisão, conferindo ao autor uma imensa popularidade. Não é preciso ter lido Nelson para conhecer seu universo criativo, o que faz dele um dos escritores mais famosos do Brasil. Conhecido como grande frasista, algumas das mais memoráveis frases de Nelson Rodrigues se referem ao Rio de Janeiro e ao carioca. Eis algumas delas: “O carioca é um ser encantado. No Rio, dois sujeitos que nunca se viram tornam-se como que súbitos amigos de infância e caem nos braços um do outro, aos soluços. É a única cidade em que pode nascer, entre dois desconhecidos, uma amizade fulminante.” “O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.” “O carioca é um extrovertido ululante.” (Rodrigues, 1997a) No conjunto da vasta obra de Nelson Rodrigues há pelo menos três representações diferentes da cidade do Rio de Janeiro. Uma delas se refere ao passado, ao período que vai da Belle Époque ao entreguerras e que se confunde parcialmente com a infância do autor na Aldeia Campista, Zona Norte do Rio de Janeiro. Essa representação da cidade como ela era remete, algumas vezes, às lembranças de sua infância e, outras, a um período histórico que Nelson só conheceu por meio dos livros e da pesquisa em periódicos. Nessa representação há, de modo geral, a nostalgia de um tempo em que as relações sociais eram ordenadas, as 1 Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ.