A nossa história começa e acaba com dois episódios da vida da rainha D. Leonor, ainda pouco conhecidos dos historiadores. Ambos têm algo em comum: o de relatarem momentos em que se fez transportar em “andas” ou num andor, isto é, foi carregada por outras pessoas. Os dois distam no entanto mais de cinquenta anos entre si. No primeiro episódio, entrava a princesa em Évora, em ano não referido, com a mãe, a poderosa duquesa viúva D. Beatriz, e três irmãos muito pequenos. Trata-se de um ritual de entrada, próprio do momento em que personagens importantes eram recebidas oficialmente pela cidade. Eram entradas triunfais, geralmente organizadas pelas vereações municipais e participadas pelo povo das cidades; neste caso, sabemos que o corregedor da comarca fez um rol de que constavam os nomes das pessoas escolhidas para transportar a princesa. Não vou deter-me aqui sobre a organização destas entradas, porque existe bibliografia especializada que dela se ocupa 2 . Neste caso, alguém faltou com o respeito devido à princesa, que era já a futura rainha: um dos nobres da cidade, que o corregedor nomeara para ser um dos carregadores das andas, recusou-se a fazê-lo, incorrendo no castigo régio. O episódio tem a data de Janeiro de 1474, e refere-se a três irmãos muito pequenos da rainha. D. João, duque de Viseu, morrera a 16 de Agosto de 1472 3 , e provavelmente os irmãos seriam Diogo, Duarte e Manuel, o mais novo, o futuro rei “felicíssimo”, que andaria pelos cinco anos 4 . Leonor seria então uma rapariga de dezasseis anos, e tinha casado três anos antes com o príncipe D. João. A narrativa refere o bispo D. Garcia de Menezes, o que confere com a cronologia estabelecida até agora, uma vez que este foi nomeado para a diocese de Évora no ano anterior 5 . O incidente deixou marcas: em 1482, ainda D. João II, em carta que escrevia à cidade, se manifestava agastado pelo modo como D. Leonor fora recebida 6 . Cremos que se referia a este episódio, a não ser que posteriormente tivesse havido outro do mesmo teor cujo rasto não tenha chegado até nós. Nem conseguimos ter a certeza do que é que se entendia por andas neste período. Seria algo de parecido com uma cadeira transportável aos ombros dos carregadores, ou seja, uma cadeira de andar? Supomos que o momento exigia que a princesa fosse exibida aos olhares do povo da cidade, pelo que não estaria encerrada num veículo fechado. Mas tudo se encaixa no que sabemos sobre o andar e o passo nas sociedades europeias desta época: raramente alguém numa posição de poder era vista a pé em cerimónias públicas realizadas no exterior. Devia ser exposta ao olhar das pessoas numa posição elevada, sem A RAINHA D. LEONOR, 1458-1525: MOMENTOS DE UMA VIDA ISABEL DOS GUIMARÃES SÁ 1 11. miolo Mazulejo1 09/10/29 19:43 Page 11