GRATUITA FERNANDO PESSOA 154 155 ATLAS FERNANDO PESSOA CHRONICAS DECORATIVAS 1 TRANSCRIÇÃO DE JORGE URIBE I   A circumstancia humana de eu ter amigos fez com que hontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tokio. Surprehendeu-me a realidade quasi evidente da sua presença. Nunca suppuz que um professor da Universidade de Tokio fosse uma creatura, ou sequer cousa, real. O Dr. Boro — sinto que me custa doutoral-o — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esfórço por desviar de decisivo, nas minhas idéas sobre o que é o Japão. Trajava á européa, e, como qualquer mero professor existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença proxima. Preciso explicar que as minhas idéas do Japão, da sua lora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das varias modalidades de vida que lhes são proprias, derivam de um estudo demorado de varios bules e chavenas. Eu por isso sempre julguei que um japonez ou uma japoneza tivesse apenas duas dimensões; e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquelle paiz economico de realidade. O professor Boro é solido, tem sombra — varias vezes iz com que o meu olhar o veriicasse — e além de fallar e fallar inglez, colloca idéas e noções comprehensiveis dentro das suas palavras. A circumstancia de que as suas idéas não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço. Além d’isto o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparencia de louça, é requintadamente ordinario e desilludidor. Fallámos de politica internacional, da guerra européa, e izemos varias incursões pelos varios phenomenos literarios caracteristicos da nossa epoca. A ignorancia que o professor Boro tinha de futurismo foi a unica benzina para a nodoa da sua realidade moderna. Mas ha algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movimentos da arte contemporanea? 1 [Nota de Jorge Uribe] Apresenta-se, aqui, uma transcrição do jornal O Raio, de setembro de 1914, conforme a ortograia original. Agradeço a Fabrizio Boscaglia por me ter facultado uma reprodução digital das páginas do jornal. Dados os factos que venho explicando, comprehende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para que? Elle era capaz de atirar para dentro da minha ignorancia uma quantidade de cousas falsas. Quem sabe se elle se atreveria a insinuar pela conversa fóra, como cousa normalmente acreditavel, que no Japão ha problemas economicos, diiculdades de vida para varias pessoas, cidades com lojas reaes, campos com colheitas como as nossas, exercitos realmente parecidos com os da Europa e com execraveis aperfeiçoamentos scientiicos para guerras em verdade contemporaneas? D’aqui elle não hesitaria talvez em me airmar — com que cynismo nem eu meço — que no Japão os homens teem relações sexuaes com as mulheres, que nascem creanças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as iguras da louça japoneza, despe-se e veste-se como se fosse européa. Porisso não tratámos do Japão. Perguntei ao professor se elle tinha tido uma boa viagem, e ele cahiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipponica pudesse admitir que ha más viagens para os japonezes, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chavenas partem-se, não comportam tormentas. A phrase “uma tempestade n’um copo de agua” ou “n’uma chavena”, como dizem outros, é puramente européa. Uma phrase houve (casual, quero crêr, no professor Boro) que me maguou mais do que outra. Fallavamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assunptos feericos — da inluencia dos mecanismos sobre a psychologia do operario, quando se sabe — claro está — que o operario não tem psychologia. E o professor referiu-se aos progressos industriaes do Japão e accrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de exito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operarios no Japão e um fusilamento (supponho) de não sei que chefe socialista. Eu ha tempos — numa columna sem duvida humoristica de um diario — vira em um telegramma de Tokio constando qualquer cousa n’esse tom; mas, além de não crer que de Tokio se mandasse telegrammas — visto Tokio não ter mais do que duas dimensões —, ninguem que como eu tenha estudado a psychologia japoneza atravez das chavenas e dos pires admitte progressos de qualquer especie no Japão, industrias japonezas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fusilados, como quaesquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho — comprehende bem a incompatibilidade entre o progresso, industria e socialismo, e a absoluta não-existencia d’aquelle paiz. Socialistas japonezes! uma contradicção lagrante! uma phrase sem sentido, como “circulo quadrado”! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquellas iguras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho d’ellas, á beira de lagos absurdos, de um azul impossivel, áquem de montanhas totalmente irreaes — essas maravilhosas iguras, com uma perfeita e patriotica individualidade japoneza, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do productivo e a barbarie do humanitario. CHAODAFEIRA.COM