PERSISTÊNCIA DOS BENS E ESPAÇOS COMUNS NA AGRICULTURA INDIGENA NA BAHIA, BRASIL 1 Thiago Mota Cardoso 1,4 , Isabel Froes Modercini 2,4 , Lilian Bulbarelli Parra 3,4 1 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia 2 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal da Bahia 3 Graduada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina 4 Programa de Gestão Territorial das Terras Indigenas no Nordeste, Consultoria FUNAI/UNESCO Resumo O presente trabalho tem por objetivo evidenciar a persistência de sistemas de manejo dos espaços e bens comuns. Trazemos a tona, através de etnografias, algumas táticas que permeiam os sistemas agrícola dos Pankararé do semi-árido e dos Pataxó do litoral baiano. A vivência em campo evidencia que persiste certa resistência diante de processos de privatização de espaços, bens e conhecimentos destes povos. A manutenção de formas neo-tradicionais de articular sistemas coletivos e familiares, com inserção ativa de novos saberes e institucionalidades permite maior flexibilidade aos comuns diante das pressões do Estado, do mercado e dos poderes locais. A persistência dos comuns pode ser vista nas formas de gerir o espaço, nas redes sociais de troca de plantas e nos trabalhos coletivos. Este trabalho é uma abordagem preliminar sobre o tema dos comuns no Nordeste Indígena. Introdução O presente trabalho tem por objetivo colocar em evidência algumas reflexões sobre as estratégias e táticas de resistência do agroextrativismo indígena na Bahia, com enfoque na persistência de sistemas de manejo dos espaços e bens comuns, diante das históricas pressões econômicas e políticas. Trazemos a tona, através de etnografias 2 , algumas táticas que permeiam a cultura agrícola dos Pankararé do semi-árido e dos Pataxó do litoral, delineando uma abordagem que desconstrói uma noção de perda cultural e passividade, para uma visão de resistência cotidiana e persistência dos comuns. De certo, tanto os índios da etnia Pataxó, quanto os Pankararé vivem hoje em territórios diminutos cercados por fazendeiros e empreendimentos privados de toda ordem. Suas terras estão devastadas por décadas de invasão de madeireiros e pela expansão da pecuária e da agricultura extensiva sob modelo latifundista. Os Pataxó ainda vivem em conflito com um Parque Nacional e os Pankararé com uma Estação Ecológica 3 que restringem o uso da terra e dos recursos florestais. Estes povos também são incentivados a adotarem os pacotes tecnológicos da revolução verde, bem como 1 Ponencia presentada al VIII Congreso Latinoamericano de Sociología Rural, Porto de Galinhas, 2010 2 Este texto é fruto do trabalho desenvolvido pelos autores durante o processo de “Etnomapeamento e Zoneamento Agroextrativista das Aldeias Pataxó do Monte Pascoal”, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e pela Fundação Nacional do Índio e durante a tese de mestrado em antropologia da segunda autora, realizado sob o tema da “agricultura indígena”. 3 Respectivamente o Parque Nacional do Monte Pascoal e a Estação Ecológica do Raso da Catarina. 1