A informação terceirizada: identidade e trabalho não pago na era do jornalismo digital Teresa Cristina Furtado Matos & Serge Katembera Rhukuzage Resumo A “era da Informação” constituiu tema de uma extensa pesquisa de Castells, no inal dos anos 1980. Várias das implicações debatidas por este autor naquela altura são hoje observáveis, principalmente nas tendências de precarização das atividades de produção da informação. Pe- rante a procura cada vez mais acentuada de informação, as empresas de comunicação, as tele- visões, os jornais impressos e online desenvolvem métodos terceirizados de produção e infor- mação que consistem em recrutar, através de concursos, uma elite letrada de outros países para produzir “notícias locais” de qualidade. Neste artigo debruçamo-nos sobre um caso concreto de terceirização de informação a partir de uma plataforma de bloggers recrutados essencialmente em África. Com base na análise de entrevistas realizadas a dez desses bloggers, mostramos, ain- da que de forma exploratória, os conlitos emergentes desse processo de produção terceirizada da informação. Na problematização mobilizamos conceitos desenvolvidos na área da sociologia do trabalho, bem como outras produções teóricas recentes sobre a precarização do trabalho informacional. Palavras-chave Precarização; terceirização; informação; blogue, trabalho não assalariado Introdução O trabalho na área da informação produz relações de identidade complexas que consideramos ser cada vez mais objetos de estudo pertinentes, no contexto das mudan- ças signiicativas que ocorrem no âmbito dos luxos de atividade e mobilidade (física e/ ou virtual) requeridas no vasto campo da informação, conhecimento e comunicação. Esta ideia está bem presente nos debates atuais desenvolvidos pelos próprios jornalis- tas (Sindicato dos jornalistas, 2015). Neste texto debruçamo-nos sobre as mundividências de um grupo de bloggers estrangeiros, sobretudo africanos, que participam de meios de comunicação franceses e que entrevistámos no âmbito de um projeto mais amplo (Katembera, s/d). Trata-se de um grupo marcado pela precarização no trabalho e que revela vários traços identitários típicos das novas situações de trabalho gerados no pleno contexto da era informacional. Com efeito, o trabalho, enquanto atividade, proporciona diversos processos de construção do sujeito que não envolvem somente as condições materiais dos trabalha- dores, mas também a maneira como esses atores se autodeinem. Rodrigues (1970) mostra no livro “Industrialização e Atitude Operária” que os trabalhadores, mesmo es- tando sujeitos às mesmas condições de trabalho e às mesmas relações de dominação, desenvolvem atitudes diferentes atribuíveis aos modos de estruturação das identidades Comunicação e Sociedade, vol. 28, 2015, pp. 339 – 358 doi: http://dx.doi.org/10.17231/comsoc.28(2015).2285