Processo Decisório e Percepção de Ameaça: Abordagem Teórica. Felipe Kern Moreira Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Brasil I – Introdução: O estudo do processo de percepção do ser humano, ou melhor, o modo como o homem apreende o mundo fenomênico externo possui raízes na filosofia, mais precisamente na teoria do conhecimento – gnoseologia –, ou, mesmo, utilizando uma expressão neo-tomista, na criteriologia. Identificar em termos teóricos o modo como o ser humano apreende a realidade a sua volta pelo processo cognitivo e interpreta os diversos vetores de informação é um desafio intelectual de fôlego. Deve-se levar em conta também que o processo de percepção e conhecimento não pode ser concebido sem a consideração do fenômeno de coletividade. Além de idéias, interpretações e, mesmo, de ideologias, que influenciam o pensar individual, não poucas vezes é um imperativo o exercício coletivo da racionalidade, seja por convergência ou por dissonância de idéias, como, por exemplo, nos processos decisórios governamentais estabelecidos nos Estados democráticos. Nesse sentido, a política é um típico fenômeno coletivo, pois a percepção da realidade, bem como a interpretação desta, provêm e incidem amiúde na sociedade. O pensar coletivo, o modo como as impressões da realidade atuam sobre o processo de percepção de um determinado povo, ou mesmo o modo como o homem de Estado 1 realiza o processo de coleta de dados e a análise destes no contexto da política internacional são assuntos de relevância para se proceder ao estudo das Relações Internacionais 2 . Este artigo pretende, em linhas gerais, dialogar com diversos sistemas de pensamento que abordam a percepção dos fatores externos em política Doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais - IREL da Universidade de Brasília - UnB. O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Brasil. 1 A obra de Jean Batiste Duroselle constitui significativa contribuição para o debate acerca de processo decisório e o “homem de Estado”, ou mesmo “líder”. Nesse sentido, a discussão estabelecida entre este autor e Raymond Aron apresenta novos desdobramentos oportunos de serem citados: “(...) o líder escolhe seus objetivos com grande liberdade. Sua ideologia, sua ambição e seu temperamento desempenham nessa escolha um papel muito importante. Sua própria posição de líder faz com que dê a seus objetivos o nome de interesse nacional. Em todo caso, diremos que o poder do qual ele é investido obriga - o a considerar ou a pensar em considerar que seus objetivos coincidam com o interesse nacional” (DUROSSELLE, 1992, p. 133). 2 O termo ‘relações internacionais’ será escrito em maiúsculas quando fizer referência à disciplina acadêmica.