Novos "lugares teológicos" para a Teologia do Pluralismo Religioso José María Vigil* Coordenador da Comissão Teológica Latino-americana da ASETT/EATWOT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo), vive hoje no Panamá. Dirige a série "Por los muchos caminos de Dios" e a coleção «Tiempo Axial» (editorial Abya Yala, Quito, Equador). Publicado em SOTER, Religiões e Paz Mundial, livro prévio do Congresso Internacional de Teologia da SOTER, em Belo Horizonte, 2010; editora Paulinas, São Paulo 2010, págs. 187-199. Introdução: uma relação correta entre Teologia do Pluralismo Religioso e Diálogo Inter- Religioso A Teologia do Pluralismo Religioso (TPR) e o Diálogo Inter-Religioso (DIR) são postos em relação com muita freqüência. Há quem, de fato, confunda os dois temas e os cite de modo equivocado um pelo outro. E não deixa de ser freqüente o caso dos que não os distinguem, e pensam até que são a mesma coisa, ou, antes, que um é parte do outro. Importa deslindar os conceitos. A TPR pode revestir a forma de uma teologia setorial (teologia "de genitivo", que teologiza sobre a pluralidade de religiões), ou a forma de uma teologia fundamental (teologia "de ablativo", que teologiza de universa theologia, porém sub specie pluralitatis, ou seja, o que seria a chamada "teologia pluralista"). Ora, em nenhum dos dois casos se pode confundir com o DIR, e também não conservam com ele uma relação de meio a fim. A TPR tem finalidade em si mesma, ainda que possa ser útil ao DIR, e o é. Todavia, à margem de seu possível serviço ao DIR, mesmo nos lugares onde, por hipótese, não fosse praticável o DIR, a TPR tem sentido e tem fundamento por si mesma. A TPR, ramo teológico que ainda não tem cinqüenta anos, não surgiu historicamente do DIR nem foi elaborada em sua maior parte por teólogos dedicados à prática do DIR. A TPR é necessária e conveniente, não tanto "para dialogar com outros" mas sobretudo "para dialogar com nós mesmos". Seu objetivo não é o diálogo com as outras religiões, e sim o diálogo com nós mesmos: um "intradiálogo". E só mediante os efeitos desse intra-diálogo que a TPR poderá ser eficaz depois para um possível DIR. Isso significa que não entendem ou não propõem corretamente a TPR aqueles que interpretam seus argumentos como se tivessem sido concebidos em função de objetivos do DIR, como se com ela se pretendesse fazer mais fácil, ou mais cômodo o DIR. Há quem pense que a TPR negocia, manipula, ou até sacrifica, as verdades de uma religião, caso julgue conveniente para o objetivo de fazê-las mais aceitáveis aos outros no DIR. A TPR busca a verdade de uma maneira crítica, honesta e sem complexos (sem complexos de superioridade nem complexos de outro tipo), "custe o que custar" e "caia o que cair", com ousadia, como deve ser toda busca honesta da verdade, sem medos nem interesses, à margem de que o DIR pode ser mais fácil... ou talvez mais difícil. Dito isso, pode-se afirmar também que, talvez por esse mesmo desinteresse e essa honradez crítica, a TPR é uma ajuda inestimável para o DIR. O DIR só será benéfico se for honrado e desinteressado. A TPR é independente do DIR, e seus críticos deveriam saber disso. Esclarecida essa relação entre TPR e DIR, podemos dizer que é um acerto incluir o tema da TPR no horizonte da preocupação desta assembléia da SOTER: "Religiões e paz mundial". Com efeito, a TPR é um fator determinante para o futuro da paz entre as religiões e, portanto, para o futuro da paz mundial. Neste estudo queremos nos concentrar na TPR e em um ponto menos freqüentado: quais são os novos "lugares teológicos" que atualmente possibilitam, reclamam e exigem a elaboração da TPR e/ou a releitura pluralista das religiões? Onde estão esses lugares teológicos no mundo atual? A TPR não é como a teologia bíblica, que poderia ser elaborada sem sair do grande farol teológico-bíblico, e que é difícil que sua necessidade possa se sentir como um clamor na rua. Ao contrário: a TPR surgiu para dar resposta a um clamor que vem da rua, da convivência social, e é uma teologia que pode e deve ser feita dando resposta à inquietação e às intuições dos fiéis que lidam com a problemática da pluralidade religiosa.