A insurreição dos sujeitos silenciados – Autorrepresentação nos discursos literário e audiovisual Lilian Saback Paulo Roberto Tonani do Patrocínio Introdução A expressão que dá título ao nosso artigo – “a insurreição dos sujeitos silencia- dos” – busca oferecer a dimensão exata do alcance político e social que está subjacente ao significativo número de produtos discursivos, seja no suporte audiovisual ou literário, assinados por sujeitos oriundos de espaços periféricos no cenário cultural contemporâneo. Com o uso desta expressão buscamos colocar em relevo o caráter de ineditismo destes discursos, afirmando a construção de um novo olhar que se move em direção aos sujeitos e espaços marginais, agora realizado não mais por um intelectual, mas sim por sujeitos marginalizados. Tal mudança é apre- sentada por Ferréz, autor residente na periferia de São Paulo, não somente como a possibilidade de elaboração do próprio discurso, mas, principalmente, como a pro- dução de uma forma de representação que tem como foco o próprio marginal. Pois, como o próprio autor afirma: “Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto” (Ferréz, 2005:09). A fala produzida por Ferréz é semelhante à de Manaíra Carneiro, codiretora de 5 x favela – Agora por nós mesmos: “A representação mudou de figura. Não são mais eles que falam o que a gente faz. A gente mesmo tem voz e conta nossas histórias.” 1 Dessa forma, seja através do texto literário ou utilizando como veículo o audiovisual, o cenário cultural contemporâneo vê surgir um expressivo número de novos sujeitos discursivos que buscam construir uma forma de representação própria para a periferia. A metáfora do autorretrato, proposta por Ferréz, pode ser tomada como uma espécie de formulação teórica que possibilita a indexação de uma série de questões que resultam diretamente da ALCEU - v. 13 - n.26 - p. 127 a 140 - jan./jun. 2013 127 Sem título-9 127 14/05/2013 11:39:57