XI Congresso Internacional da ABRALIC Tessituras, Interações, Convergências 13 a 17 de julho de 2008 USP – São Paulo, Brasil A FLOR DO MEU SEGREDO: MAPAS DE LEITURAS Profa. Dra. Lourdes Kaminski Alves (UNIOESTE) i Resumo: Estudo de A Flor do meu Segredo (1996) de Pedro Almodóvar, sob o enfoque comparatista em que será tomado o texto editado por Campo das Letras, Editores, S.A, Porto em 1996 e o filme com atuação de Marisa Paredes e Rossy de Palma, em 1995. O texto pode ser compreendido como modelização do mundo, se indagarmos sobre as relações entre o texto e a realidade. O filme, igualmente, pode ser compreendido nesta dimensão de modelização do mundo ao indagarmos sobre o tipo de representação, se mimética ou expressiva. Nesta perspectiva, é possível observar as relações com o argumento ou com o ponto de partida que dá origem ao argumento e verificar a relação poética, gênero e estatuto do texto e o seu lugar como objeto de cultura. Palavras-chave: filme, texto/roteiro, transposição de linguagens. Introdução Este artigo pretende desenvolver uma reflexão sobre a leitura do texto/roteiro A Flor do meu Segredo (1996) de Pedro Almodóvar, e o filme de mesmo nome. Trata-se de estudo de caráter comparatista em que será observado, no texto editado por Campo das Letras, Editores, S.A, Porto em 1996, o teor subjetivo da narrativa e a realização objetiva da imagem no filme. Serão observadas as relações da narrativa fílmica com o argumento ou com o ponto de partida que dá origem ao argumento. O texto/roteiro está organizado em 70 seqüências apresentadas, cada uma delas por uma indicação do espaço da ação. O tom da narrativa de Almodóvar se aproxima muito do texto literário bem realizado, explorando a linguagem poética e o recurso da ironia. Esse tom da narrativa literária impressa no roteiro nem sempre alcança a força dramática na imagem projetada no écran. 1. DA SUBJETIVIDADE DA PALAVRA À OBJETIVIDADE DA IMAGEM A leitura do roteiro de A Flor do meu Segredo (1996) escrita por Pedro Almodóvar denuncia o texto/argumento que em muito se assemelha a texto para teatro, onde os diálogos são transcritos com cuidado descritivo e servem de fio condutor para a trama. A proximidade com o texto dramático singulariza a adaptação cinematográfica, tornando-a diferente das adaptações feitas a partir de romances. Esta diferença talvez resida no fato de o romance, ou qualquer outro gênero literário exigir uma releitura, que resultará sempre em uma obra diferente ao ser transposta para a linguagem do cinema. Para Doc Comparato, o roteiro é “a forma escrita de qualquer espetáculo audiovisual” (DOC COMPARATO, 1995, p. 398). Nesse sentido, o autor refere-se a uma conceituação mais abrangente, que tanto serve ao cinema, como à TV e ao teatro. A leitura do roteiro apresenta ao leitor as intenções do autor “(...) se ver um filme é envolvimento, é poesia, ler um roteiro é como ver a radiografia, o pulsar de um eletrocardiograma, é ver o que está por trás. É dissecação.” (DOC COMPARATO, 1995, p. 399). A história de A Flor do meu Segredo tem início com uma cena que aparentemente, nada tem a ver com seu próprio fim. A seqüência que abre o argumento está ambientada num hospital-escola em que dois personagens representam, em uma atividade de seminário, dois jovens médicos que tentam convencer uma mulher, que interpreta o papel de uma mãe, que acabou de perder o filho em acidente. Eles tentam persuadi-la a permitir a doação de órgãos do filho morto. Essa cena expressa a dor e a incompreensão diante da morte, diante de uma perda inesperada. A fragilidade humana é expressa na figura feminina que perde o filho, cuja dor faz lembrar o sujeito