Dois meses após a reclassificação do canabidiol (CBD) pela ANVISA, pacientes epiléticos refratários graves, por todo o país, continuam encontrando grandes dificuldades em ter acesso ao óleo rico em CBD para auxílio no controle de crises convulsivas, produzido a partir de espécies de Cannabis com altas concentrações deste canabinoide. Como o CBD ainda não existe na forma de um medicamento isolado, estando disponível somente em óleos ou extratos que possuem quantidades menores de outros canabinoides, a reclassificação em nada ajudou. Persistem as exigências burocráticas que demandam autorizações especiais, termos de responsabilidade, relatórios e receitas médicas muito difíceis de conseguir. Por outro lado, o Conselho Federal de Medicina (CFM), em sua resolução 2113 de 16/12/2014, limita a prescrição à neurologistas e psiquiatras somente para casos de crianças e adolescentes epiléticos refratários. Independente da resolução do conselho, a quase totalidade da classe médica brasileira desconhece o benefício medicinal da maconha, sem falar que faltam especialistas, tanto neurologistas quanto psiquiatras, em várias regiões do país. A Receita Federal, por sua vez, bloqueia a entrega do óleo no domicílio do paciente, forçando seus pais ou responsáveis a retirarem o produto em aduanas de alguns aeroportos nacionais sob o risco de pagar imposto de importação e taxas de custódia. Neste cenário, ainda pesam as preocupações quanto à composição química, controle sanitário e procedência destes produtos importados. Seria muito mais fácil se a produção do óleo rico em CBD fosse realizada no Brasil, com rigoroso controle de qualidade, tanto químico quanto sanitário, destinada a grupos de pacientes específicos, sob supervisão das autoridades. Além de facilitar, ampliar o acesso e reduzir custos, uma produção nacional qualificada poderia incluir o óleo como prática terapêutica dentro do Sistema Público de Saúde. Diante de tantas dificuldades aliadas à total indignação, familiares e pacientes, unidos através das redes sociais após ampla divulgação nacional dos bons resultados com o óleo, não só para o tratamento de epilepsia como também para outras doenças incapacitantes, fundaram a Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME) em assembleia presencial realizada no Rio de Janeiro em dezembro/14. Hoje, a AMA+ME conta com 90 associados pacientes distribuídos em 14 estados de todas as regiões brasileiras e luta para promover, garantir, consolidar e expandir a inclusão social e o respeito aos direitos humanos para todos os pacientes que precisam de maconha medicinal. Representados, nossos associados poderão cobrar, tanto do poder público quanto do CFM, agilidade para solução de todos os entraves, legais, burocráticos e médicos, para acesso emergencial aos produtos importados. Poderão, também, fomentar a possível produção nacional com qualidade além de informar a classe médica e a sociedade sobre os benefícios da maconha medicinal. Neste sentido, a diretoria médico-científica da AMA+ME conduz, com metodologia e rigor científico, um estudo observacional relacionado aos 70 associados epiléticos incluídos 18 adultos. Deste total, 51 são usuários de algum óleo rico em CBD e 19 aguardam ansiosamente. Os resultados preliminares deste estudo evidenciam expressiva redução no número e intensidade das crises convulsivas. 62,5% dos usuários deixaram de comparecer à serviços de urgência e emergência para socorro a status epileticus (crises convulsivas contínuas com elevado risco de morte por insuficiência respiratória). Além de redução significativa do risco de morrer, esse dado favorece o Estado e as operadoras de planos de saúde que poderão gastar menos recursos financeiros em atendimento de urgência e emergência. A AMA+ME, assim como outras associações de pacientes com fins semelhantes que começam a surgir no país, está somente iniciando sua jornada em prol da regulamentação da maconha medicinal no Brasil. Este editorial foi escrito, a convite, por Leandro Ramires, diretor médico-científico da AMA+ME. CENTRO BRASLEIRO DE INFORMAÇÕES SOBRE DROGAS PSICOTRÓPICAS MAIO DE 2015 BOLETIM MACONHABRÁS Nº 4 Boletim Maconhabrás Nesta edição: Pacientes e médicos buscam a maconha medicinal 2 Medimamentos e formas de uso 2 Acesso ao CBD: a velha luta pelo direito dos pacientes 3 Estudo compara efeito de extrato e CBD puro 4 A fitoterapia e a indústria: histórico de um combate desleal 5 Conselho editorial: Elisaldo A. Carlini, Graziella Rigueira Molska, Julino Soares Neto, Lucas de Oliveira Maia, Rafael Morato Zanatto e Renato Filev Coordenação: Lucas de Oliveira Maia Supervisão: E. A. Carlini Contato: www.cebrid.com.br / cebrid.unifesp@gmail.com / maconhabras@gmail.com BOLETIM MACONHABRÁS Nº 4 Editorial Sociedade organizada luta pela regulamentação da maconha medicinal no Brasil