Ciências da Terra (UNL), Lisboa, nº esp. V, CD-ROM, pp. C61-C64 Geomorfologia do Parque Natural de Montesinho: controlo estrutural e superfícies de aplanamento* P. Pereira (a,1) , D. I. Pereira (a,2) , M. I. Caetano Alves (a,3) & C. Meireles (b,4) Trabalho realizado no âmbito do Projecto PNAT 1999/CTE/15008 “Geologia dos Parques Naturais de Montesinho e do Douro Internacional: caracterização do Património Geológico”, financiado pela FCT e pelo ICN. a - Departamento de Ciências da Terra, Universidade do Minho, Campus de Gualtar, 4710-057 Braga. b - Instituto Geológico e Mineiro, Rua da Amieira, 4466-956, S. Mamede de Infesta. 1 - paolo@dct.uminho.pt; 2 - insuad@dct.uminho.pt; 3 - icaetano@dct.uminho.pt; 4 – carlos.meireles@igm.pt RESUMO Palavras-chave: Geomorfologia; Parque Natural de Montesinho; controlo estrutural; superfícies de aplanamento. É apresentada uma observação geomorfológica de conjunto da área do Parque Natural de Montesinho (PNM), no que diz respeito aos controlos litológicos e tectónicos das grandes linhas da paisagem e às principais superfícies de aplanamento. O PNM, situado no nordeste de Portugal, encontra-se na transição entre o Planalto Transmontano e as Montanhas Galaico- Leonesas, apresentando por isso características de ambos os domínios paisagísticos. A tectónica alpina e a grande diversidade litológica associada a uma tectónica mais antiga são as principais condicionantes da geomorfologia da região. Por outro lado, a reactivação alpina de falhas antigas foi determinante na morfologia do sector oriental do parque. A paisagem do PNM reflecte ainda etapas de aplanamento, identificando-se quatro superfícies principais: 1300-1400 metros, na Serra de Montesinho; 1050-1150 metros, nas regiões de Guadramil, Soutelo e de Vinhais-Coroa; 900-950 metros, nas regiões da Alta Lombada, Aveleda (com depósitos fini-terciários), Espinhosela, Moimenta, Lomba e Pinheiros; 650-750 metros, na região de Bragança-Quintanilha, com presença de depósitos mio-pliocénicos. A superfície de Onor (850-900 metros) tem expressão local, no contexto da depressão tectónica de Baçal. O nível dos 900-950 metros é o mais representativo na área do PNM. Introdução O Parque Natural de Montesinho (PNM) situa-se na parte norte dos concelhos de Vinhais e Bragança, engloba as serras de Montesinho e da Corôa, numa área de 750 Km 2 , fazendo fronteira com Espanha em cerca de 90 Km. Este trabalho insere-se no âmbito do estudo geomorfológico da área do PNM, tendo as primeiras observações incidido sobre o seu sector oriental, região situada a norte de Bragança (Pereira et al. 2002; Meireles et al. 2002). Apresenta-se agora uma visão de conjunto da área do PNM, com ênfase na relação entre as estruturas tectónicas, as litologias e a geomorfologia regional, ao mesmo tempo que se define o escalonamento das principais superfícies de aplanamento representadas na área. O nordeste de Portugal é habitualmente associado a uma vasta área planáltica, prolongamento natural do Planalto de Castela-a-Velha. Trata-se de uma superfície poligénica de aplanamento, também designada por peneplanície da Meseta Norte (Ribeiro et al., 1987) ou Superfície Fundamental (Martin-Serrano, 1988) e que está bem preservada na região de Miranda do Douro, onde o rio Douro e os seus afluentes da margem portuguesa estão fortemente encaixados. De acordo com Martin-Serrano (1988, 1994, 1999), no fim do Mesozóico, período geotectónico especialmente distensivo, o soco hercínico, profundamente alterado sob condições climáticas tropicais húmidas, encontrar-se-ia arrasado. No início do Cenozóico, com tectónica compressiva e mudança climática (Ferreira, 1991) a paisagem geomorfológica começa a tomar a sua configuração actual, em que, para além das superfícies herdadas e relevos residuais, aparecem as morfoestructuras em blocos e os encaixes fluviais (Martin-Serrano, 1999). A região do PNM, com cotas predominantemente acima dos 800 metros, apresenta sectores que preservam restos desse aplanamento. Por outro lado, os relevos de maior expressão na área do PNM (Coroa e Montesinho) não são mais do que a terminação meridional das montanhas Galaico - Leonesas (Martin-Serrano, 1994), as quais atingem mais de 2000 metros de altitude. A deformação alpina da região e o seu levantamento orogénico, durante o Paleocénico-Eocénico, resultou da compressão provocada pela convergência entre as placas Europeia e Ibérica (Martin-Serrano, 1994; Santanach Prat, 1994; Andeweg, 2002; Yepes, 2002). A posição da área do PNM entre domínios geomorfológicos de planalto e de montanha confere-lhe particularidades de ambos os tipos de paisagem. Controlo pela diversidade litológica e pela tectónica O PNM situa-se numa das mais complexas áreas geológicas do Noroeste Peninsular, englobando unidades autóctones da Zona Centro Ibérica e unidades parautóctones e alóctones da Zona Galiza-Trás-os-Montes, intrusões graníticas variscas e depósitos cenozóicos. A geologia da região é dominada pelo maciço máfico/ultramáfico, polimetamórfico de Bragança e por toda a complexa imbricação de mantos de carreamento, instalados durante a orogenia varisca (Ribeiro, 1974; Iglésias et. al. 1983, Ribeiro et al., 1990, Meireles, 2000a, 2000b). Na área do PNM C61