PESSOAS SÓS: MÚLTIPLAS REALIDADES Maria das Dores Guerreiro Resumo O presente artigo centra-se no estudo das pessoas sós residentes em Portugal. Com base nos dados dos censos de 2001 e de 1991, é feita uma análise da evolução das unidades domésticas de mono-residentes, estabelecem-se comparações a nível europeu e identifica-se a pluralidade de perfis sociais da população que as constitui, bem como a respectiva distribuição geográfica. O artigo dá também conta das principais tendências de crescimento dos vários perfis identificados, avançando com algumas hipóteses para a compreensão sociológica desta realidade multifacetada. Palavras-chave Mono-residencialidade, família, dinâmicas familiares, mudança. Quando se fala da emergência de novas formas familiares nas sociedades de modernidade avançada, é usual referir o crescimento das unidades residenciais de pessoas sós, como resultado das mudanças sociais ocorridas na esfera privada. A valorização das identidades pessoais e da autonomia dos indivíduos relativamente às estruturas sociais é vista por alguns autores como associada à perda de importância da instituição familiar e do que ela tem representado, em termos de coesão, para o grupo de parentesco. Libertos de obrigações e solidariedades para com a família, os indivíduos fa- zem escolhas menos condicionadas, optam por outros estilos de vida, por novos modos de viver os afectos, os quais se reflectem, nomeadamente, nas formas de re- sidência. Viver só ou com outras pessoas que não façam parte dos respectivos laços de parentesco torna-se, na perspectiva de autores como Beck (1992), uma modali- dade típica decorrente da modernidade, de uma sociedade em que predominam as leis do mercado e os imperativos de mobilidade profissional. A importância atri- buída à carreira, a prioridade que a profissão representa, contribuem para pôr de lado o assumir de responsabilidades conjugais e parentais. Para Giddens (1994) o avanço da modernidade traz consigo alterações nas instituições da família e do casamento, ligando-se directamente à transformação da intimidade no contexto da vida quotidiana. As relações pessoais e íntimas po- dem adquirir contornos não existentes em quadros institucionais tradicionais, e dão azo a que tenda a ser cada vez maior o número de pessoas a viverem sozinhas (Giddens, 2000). Não apenas viveriam sós aqueles que entraram em ruptura conju- gal e não voltaram a coabitar, como outros, geralmente jovens, que no processo de transição para a vida adulta se autonomizaram da família de origem sem optarem, pelo menos momentaneamente, pela via da conjugalidade (Galland, 1995; Kauf- mann, 2000). Mas as situações de isolamento residencial não significam forçosamente SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 43, 2003, pp. 31-49