ISSN 2238-0205 87 Notas e ReseNhas Aproximações da autopoiese com a geograia humanista Geograicidade | v.4, n.2, Inverno 2014 APROXIMAÇÕES DA AUTOPOIESE COM A GEOGRAFIA HUMANISTA Henrique Fernandes Moreira Neto 1 Introdução O lugar é um dos temas fundamentais da geograia contemporânea e a Geograia Humanista colaborou especialmente para seu desenvolvimento, trazendo contribuições da fenomenologia, do existencialismo e da psicologia (HOLZER, 1992; TUAN, 2013). Estas contribuições têm produzido repercussões ontológicas, levando à relexão sobre a condição humana e o próprio sentido ontológico da experiência geográica (RELPH, 2012; MARANDOLA JR., 2012) A Geograia Humanista fez isso muito centrada na relação homem- meio, pois “o conhecimento geográico, enquanto essência do relacionamento homem-meio, é um destes conhecimentos que compõem nossa realidade multifacetada” (MARANDOLA JR., 2010a, p. 15). A atenção parece estar concentrada no meio e suas características, mas como contemplar a natureza propriamente biológica e orgânica destes seres humanos (homens e mulheres) que somos? O biólogo Humberto Maturana, empenhado em oferecer explicações abrangentes sobre o que é o conhecimento e como conhecemos, percebe a impossibilidade de tal explicação caso antes não entenda o que é o ser humano, biológica e culturalmente falando e como ele conhece. Surge então a teoria da Autopoiese; uma explicação do que 1 Geógrafo pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Bolsista Treinamento Técnico 3 FAPESP. Laboratório de Geograia dos Riscos e Resiliência (LAGERR), Fa- culdade de Ciências Aplicadas (FCA), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). moreirah.neto@hotmail.com. Rua Pedro Zaccaria, 1300. Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp. Limeira, SP. 13484-350. seja o viver como ato de conhecer dos seres vivos. Um latente vir-a- ser fenomenológico dos seres vivos em geral, e de nós humanos em particular, que depende do meio para permitir o luir da experiência que é o viver, dotando o espaço de identidade e autenticidade. (MATURANA, 2001) Marandola Jr. (2010b, p. 1), quando discorre sobre identidade e autenticidade dos lugares, aponta que Edward Relph busca “fundamentos fenomenológicos para a Geograia”, ao passo que entende lugar como fenômeno. Logo, Dartigues (2008, p. 32) nos aponta que, “para alcançar a essência [de lugar], não se trata [aqui] de comparar e de concluir, mas de reduzir, isto é, de puriicar o [esse] fenômeno de tudo que comporta de inessencial, de ‘fático’, para fazer aparecer o que lhe é essencial”. O que será considerado “inessencial” não exclui ou extingue a complexidade do lugar, mas, apenas evita que essa complexidade funcione como cortina de fumaça, impedindo-nos de enxergar e compreender o lugar – essa compreensão por sua vez possibilitará a audaciosa resposta à pergunta: que é lugar? Como concluiu Holzer (1999) em seu artigo sobre lugar, é necessário um retorno à ontologia da Geograicidade e uma análise da importância do lugar para a constituição da própria Geograia. Eric Dardel, geógrafo francês, foi quem melhor fez isso, expressando todo o sentido existencial do geográico no seu conceito de geograicidade (DARDEL, 2011). Nossa proposta é buscar uma conexão entre os aspectos biológico- culturais (a Autopoiese de Maturana) e a ontologia fenomenológica (a geograicidade de Dardel), constituindo o que poderíamos chamar de Autopoiese Geográica, centrada em uma compreensão autopoiética e fenomenológica do lugar como fato na existência e expressão na experiência da relação homem-meio. O resultado é uma compreensão autopoiética da geograicidade dardeliana, permitindo