Anais Eletrônicos do 14º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia 14º SNHCT 1 Belo Horizonte, Campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG 08 a 11 de outubro de 2014 | ISBN: 978-85-62707-62-9 História e mito André Lira Ora, se não é dado à ciência tratar cientificamente de sua própria essência, também não lhe assiste a possibilidade de acesso ao incontornável de sua essência. M. Heidegger, “Ciência e pensamento do sentido” Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento e, de repente, é trazida de volta para o colo do homem. Então, o homem diz: ‘eu me lembro’ , e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. F. Nietzsche, “Segunda consideração intempestiva” Há uma famosa passagem de Aristóteles, situada na Poética, que situa a diferença essencial entre poesia e história ou mito e história. A partir dela, traremos neste trabalho uma discussão entre a história, enquanto forma privilegiada de conhecimento no Ocidente, e o mito, enquanto forma superada e desprivilegiada. Diz o trecho: Não é de ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular (ARISTÓTELES, 1990: 115) [1451a 36-47]. Segundo Aristóteles, portanto, há uma diferença essencial entre o fazer e o poder do historiador e do poeta. Para começar, Aristóteles se reporta ao poeta, na dinâmica da língua grega, enquanto poihthv", do verbo poieivn, ou seja, aquele que em cuja ação desponta uma criação, que faz passar do não-ser ao ser”. 1 O filósofo frisa que a questão formal é puramente secundária e nada diz da essência da poesia o que pode parecer um choque até para os ouvidos atuais mais estudados, regidos pelo significado dicionarizado da palavra, “arte de Doutorando em História das Ciências pelo HCTE/UFRJ. E-mail: andreobranco@ufrj.br. 1 Cf. PLATÃO. Banquete, 205 B8-C10. Nessa passagem, inclusive, há uma constatação muito interessante para os ouvidos modernos: a origem da obra não é o criador (enquanto agente subjetivo), mas a própria poesia, originária; o autor, portanto, apenas um colaborador.