O LUGAR DA COR NO CINEMA: AZUIS ENTRE REGISTRO E CRIAÇÃO Wanderley Anchieta 1 Resumo: Este trabalho procura estabelecer relações entre os proeminentes azuis de A História da Eternidade e de Abril Despedaçado com uma análise fílmica e textual de seu status. Ambos os filmes tratam do desejo de fuga do árido sertão do Brasil, apresentado com paletas em tons arenosos e, eventualmente, cinzentos. O mar surge como elemento de disrupção com seu azul insinuante. Bambas entre arte e indústria/tecnologia ficam as escolhas cromáticas dos filmes. Dessa tensão surge a incisiva crítica de Jacques Aumont de que a cor no cinema é vítima de sua própria tecnicidade. Em suma, as cores dos filmes funcionariam como uma propriedade natural dos elementos representados – um mero registro. Não seria tal ideia simplificadora das potencialidades da imagem cinematográfica? Palavras-chave: cinema. cores. realismo. estética. imagem. Introdução Abril Despedaçado (2001, dir.: Walter Salles) é um filme sobre o tempo. Sobre o tempo que se repete incessantemente. Sobre o peso que esse tempo maçante impõe na psique daqueles personagens que, presos num círculo, não enxergam mais possibilidades – dentre elas, por exemplo, a de buscar qualquer átimo de felicidade que seja. A História da Eternidade (2014, dir.: Camilo Cavalcante) divide com Abril Despedaçado algumas similaridades: ambos se passam no sertão do país, em cidades pequenas; ambos possuem personagens detidos em situações adversas aos seus desejos; ambos apresentam ao menos um personagem que sonha com o mar azul como símbolo que se contrapõe à aspereza do universo arenoso e cinzento em que vive. Abril Despedaçado trata da feroz disputa entre duas famílias – Breve e Ferreira, que lançam seus membros em duelos mortais. À família ‘perdedora’ resta o luto, por um tempo curto, e a vingança. O filme se desenrola a partir do ponto de vista da família dos Breves, dos filhos restantes, Tonho (Rodrigo Santoro) e do menino Pacu (Ravi Ramos Lacerda). Tonho deve vingar a morte do irmão mais velho para manter a honra da família. Durante esse luto/trégua, Tonho conhece Clara, uma jovem circense, se apaixona por ela e começa a questionar seu lugar no mundo. Ademais, Tonho começa a perceber as aspirações de Pacu, o sonhador que quer outra vida para si e para o 1 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense. E-mail: wya@outlook.com.