! "" #$%& 56 ’! ! "" #$%& A moral cristã segundo a lógica da vontade de poder Christian morals according to the logic of the will to power Diogo Bogéa * Resumo: Nosso objetivo neste trabalho é apresentar a lógica de constituição e operação da moral cristã, com base na visão de mundo desenvolvida por Nietzsche em sua maturidade, que tem como princípios fundamentais a vontade de poder e a teoria das forças. Segundo esta concepção, o mundo é composto por forças em conflito, não admitindo qualquer instância “além”, “em si”, “sagrada”, como se pretende a moral cristã. Com o apoio da obra A genealogia da moral, vamos demonstrar que a moral é uma configuração de forças produzida por dentro do próprio mundo e, enquanto tal, perspectiva, interessada e que atua como ferramenta de dominação, acumulação e expansão de poder. Palavras chave: moral cristã, vontade de poder, forças Abstract: Our aim in this paper is to present the constitution and operation logic of Christian morality, based on the worldview developed by Nietzsche in his maturity, wich has as fundamental principles the will to power and the theory of forces. According to this conception, the world is composed by forces in conflict, admitting no instance “beyond”, “per se”, “sacred”, as Christian morality intends to be. With support from The Genealogy of morals, we’ll show that morality is a configuration of forces produced within the world itself and, as such, perspective, interested and acting as a tool of domination, accumulation and expansion of power. Keywords: Christian morality, will to power, forces Em diversas passagens das obras e fragmentos póstumos de sua maturidade, Nietzsche elabora uma visão de mundo baseada no conceito de vontade de poder. Quando mencionada pela primeira vez, em Assim falava Zaratustra, a vontade de poder guardava ainda um sentido estritamente antropológico, estando ligada aos homens e aos povos (Za/ZA, Dos mil e um fins). Num segundo momento, passa a se referir a tudo o que é “vivo” (Za/ZA, Da vitória sobre si próprio). Por fim, seu campo de atuação é definitivamente ampliado com a introdução da teoria das forças, que compreende tudo o que há como expressão de forças. É apropriando-se do conceito de força da física e acrescentando-lhe esta espécie de impulso intrínseco – a vontade de poder – que Nietzsche elabora a assim chamada teoria das forças, a qual constitui uma chave notadamente eficaz de descrição e explicação da existência. Segundo esta teoria, tudo o * Mestrando em Filosofia pela PUC-Rio (com bolsa Cnpq), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Contato: diogobogeaa@hotmail.com