1 A AGROINDÚSTRIA FAMILIAR COMO UMA ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO SOCIAL DE NOVIDADES NA AGRICULTURA: Uma análise comparativa entre Sul e Nordeste do Brasil Norma Kiyota; Marcio Gazolla; Nildete Maria da Costa Ferreira; Gelson Pelegrini; Miguel Ângelo Perondi; Luis Alberto Cadoná e Audrey Merlin Leonardi de Aguiar RESUMO EXECUTIVO 1. Introdução O padrão de produção majoritário no meio rural brasileiro é aquele baseado na intensificação do uso de recursos e insumos adquiridos através dos mercados de produtos. Nessa conjuntura os agricultores familiares encontram-se numa situação em que os custos de produção são tão elevados que estes não conseguem ser compensados pelos rendimentos da venda da produção, ocorrendo o que autores como Ploeg (2000; 2008) chamam de squeeze da agricultura 1 . Assim, muitas famílias de agricultores estão buscando alternativas mais viáveis e sustentáveis via agregação de valor do produto agrícola, no sentido de atingir o que vários autores atualmente chamam de maior autonomia no seu processo de reprodução social, formas de resistência e de diversificação das atividades produtivas e econômicas (PLOEG, 2008; ELLIS, 2000; SCOTT, 2002). Nesse contexto a agroindustrialização da produção representa uma novidade e uma forma dos agricultores familiares se reproduzirem socialmente com mais autonomia, possuindo agência nos processos de desenvolvimento rural (LONG e PLOEG, 1994; LONG, 2001, 2006). A idéia principal é que a agroindustrialização é uma novidade produtiva construída pelos agricultores, devido a esta ser uma prática de desenvolvimento rural nova nas famílias que leva em conta os conhecimentos, habilidades e recursos dos próprios agricultores e, também, as condições do entorno local e do contexto em que os agricultores estão inseridos 2 . A partir da Perspectiva Orientada aos Atores – POA, os próprios agricultores constroem e geram as novidades produtivas em conjunto com outros atores sociais com que este possuem relações (extensionistas, instituições, organizações, investigadores, atores de desenvolvimento, consumidores dos seus produtos, etc.) e estas não são exógenas, lineares e globais, tal como eram no paradigma da modernização agrícola. Nesse sentido, o trabalho enfoca as estratégias adotadas por famílias envolvidas no trabalho em unidades agroindustriais nos espaços rurais com o objetivo de qualificar o processo de construção de novidades e de agência dos atores, de geração de valor agregado, de diversificação das famílias e da economia regional em que estes estão inseridos; bem como analisa, também, os efeitos das agroindústrias familiares sobre o desenvolvimento rural nestes locais pesquisados. Para a comparação entre os resultados do Sul e Nordeste foram selecionados três estudos de casos. O primeiro no Município de Apodí – RN, em que foi pesquisada uma cooperativa de apicultores, a Cooperativa Potiguar de Apicultura e Desenvolvimento Sustentável (COOPAPI). O segundo caso nos municípios do Sudoeste do Paraná, em que 1 Squeeze significa “aperto”, “compreensão” e/ou “estreitamento”. O conceito refere-se à situação em que os agricultores mesmo aumentando a produtividade na agricultura, devido à queda generalizada dos preços agropecuários e o crescente aumento dos custos de produção, obtêm rendas agrícolas cada vez mais baixas. Ou seja, há um “aperto” nas suas condições de reprodução social. 2 Nesse sentido as novidades produtivas diferem totalmente das inovações na agricultura. Para ver as diferenças, consultar a excelente obra organizada por Wiskerke e Ploeg (2004).