Rev. Bras. Reprod. Anim., Belo Horizonte, v.36, n.1, p.18-24, jan./mar. 2012. Disponível em www.cbra.org.br _________________________________________ Recebido: 8 de fevereiro de 2011 Aceito: 2 de maio de 2012 Impacto do estresse térmico na reprodução da fêmea bovina Heat stress impact on reproduction of bovine female D.R. Rocha 1,3 , M.G.F. Salles 2 , A.A.A.N. Moura 1 , A.A. Araújo 1,3 1 Programa de Doutorado Integrado em Zootecnia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil. 2 Lar Antonio de Pádua, Pacatuba, CE, Brasil. 3 Correspondência: davidufc@yahoo.com.br, aaavet55@gmail.com Resumo Com o objetivo de melhorar os índices de produtividade de seus rebanhos, muitos criadores de regiões tropicais têm optado pela aquisição de animais especializados oriundos de regiões de clima temperado com condições climáticas bem diferenciadas das dos trópicos. Devido às altas temperaturas tropicais, estes animais estão constantemente susceptíveis ao estresse térmico, uma vez que não são dotados de mecanismos anatomo- fisiológicos necessários para manter a homeotermia, resultando em prejuízos para a produção e reprodução animal. Portanto, esta revisão tem por objetivo discorrer sobre os efeitos negativos do estresse térmico sobre a reprodução, enfocando aspectos relacionados à atividade ovariana e à mortalidade embrionária. Palavras-chave: estresse térmico, mortalidade embrionária, reprodução. Abstract Aiming to improve the productivity rates of their herds, many farmers in tropical regions have opted for the acquisition of specialized animals come from temperate regions with weather conditions so different from those found in the tropics. Due to high tropical temperatures, these animals are constantly susceptible to heat stress; because they do not have anatomical and physiological mechanisms to maintain efficiently its homeostasis, resulting in prejudices to production and reproduction performances. This review aims to discuss the adverse effects of heat stress on female reproduction, emphasizing some aspects involved in ovarian activity and embryo mortality. Keywords: embryo mortality, heat stress, reproduction. Introdução Nos atuais sistemas de exploração pecuária, tem sido observada uma maior exigência de produção dos rebanhos, o que tem levado muitos produtores das regiões de clima tropical a optar pela aquisição de animais especializados, geralmente originários de clima temperado, os quais são pouco adaptados às condições dos trópicos, onde os fatores ambientais geralmente não se compatibilizam com a amplitude ideal de conforto térmico para eficiência ótima de desempenho deles. Nesse processo, a utilização destes grupos genéticos potencialmente mais produtivos pode desencadear alterações comportamentais, endócrinas e fisiológicas que irão afetar as funções normais dos animais (Silva et al., 2002; Morais et al., 2003), atuando direta e negativamente na sua expressão genética. Tal fato tem elevado os custos de produção devido a uma série de transtornos reprodutivos nos animais. Além disso, estes genótipos são mais exigentes com relação a práticas de manejo e nutrição, principalmente conforto ambiental, o que pode onerar o sistema de produção. Efeitos do estresse térmico sobre a reprodução A temperatura ambiente é um dos importantes fatores ambientais que interferem na reprodução (Lee et al., 1974). Estudos iniciais de Selye (1936) mostraram que o estresse é acompanhado por um acréscimo na atividade do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal (HHA) e por um decréscimo na função reprodutiva, mostrando haver uma possível relação com os hormônios do eixo hipotalâmico-hipofisário-gonadal (HHG). Os hormônios relacionados ao estresse podem influenciar a função sexual em três níveis do eixo HHG: no hipotálamo, por meio do CRH (hormônio liberador de corticotrofina), onde este inibe a secreção de GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas) e, consequentemente, na hipófise anterior, diminui a liberação de LH (hormônio luteinizante) e de FSH (hormônio folículo estimulante), alterando nas gônadas o efeito estimulatório das gonadotrofinas (Pereira, 2005) e, assim, prejudicando a reprodução animal. Com a diminuição da liberação das gonadotrofinas (LH e FSH), a produção de estrógenos também será afetada, o que irá acarretar em diversos transtornos reprodutivos como: falhas na detecção do estro ocasionadas pela presença de estro silencioso, falhas