Rev Assoc Med Bras 2008; 54(5): 415-21 415 RESUMO OBJETIVO. A azatioprina (AZA) tem sido usada freqüentemente no tratamento da doença de Crohn (DC). O objetivo do presente estudo foi avaliar a freqüência, evolução e abordagem dos efeitos adversos da AZA no tratamento de pacientes com DC. MÉTODOS. Foram incluídos prospectivamente 106 pacientes portadores de DC em uso de AZA, de janeiro de 2002 a dezembro de 2006. Registraram-se dados clínicos e demográficos, com controle laboratorial mensal dos efeitos hematológicos e supervisão de reações adversas por meio de avaliação clínica. Realizou-se comparação entre os grupos com e sem efeitos adversos. RESULTADOS. Cinqüenta e seis (52,7%) dos pacientes estudados apresentaram pelo menos um efeito adverso, requerendo redução transitória da dose da droga; 18 (17%) necessitaram suspender definitivamente o uso de AZA, geralmente devido a reações de hipersensibilidade. Náuseas e vômitos, freqüentemente leves, ocorreram em 29 (27,4%); a raça negra e aqueles com comorbidades apresentaram mais intolerância gástrica do que os brancos e aqueles sem outras doenças associadas (p=0,04). Leucopenia foi o efeito adverso mais freqüente, ocorrendo em 36 (34%). O tempo de uso de AZA foi maior em pacientes com leucopenia do que nos não leucopênicos (p=0,001), enquanto a dose média de AZA foi menor naqueles com leucopenia comparados aos não leucopênicos (p=0,005). Não houve infecções graves, neoplasias ou óbitos durante o tratamento com AZA. CONCLUSÃO. A AZA mostrou ser uma droga relativamente segura no tratamento da DC, desde que seja mantida supervisão clínica e laboratorial periódica durante todo o tratamento. UNITERMOS: Doença de Crohn. Azatioprina. Toxicidade. INTRODUÇÃO A doença de Crohn (DC) é uma doença inflamatória intestinal (DII) de curso crônico, recorrente e imprevisível, que pode afetar qualquer segmento do trato digestivo 1 . São comuns as manifestações extra- intestinais, as quais podem envolver vários sistemas orgânicos 2 . Vários estudos demonstraram que houve grande aumento mundial na inci- dência da DC ao longo da segunda metade do século XX 3,4 , o que também ocorreu no Brasil 2,5 . A terapêutica medicamentosa, antes limitada aos corticosteróides, antibióticos e aminossalicilatos, inclui hoje os imunossupressores/imunomoduladores e terapêuticas bioló- gicas, sendo essas duas últimas classes empregadas cada vez mais freqüentemente entre nós, e muitas vezes capazes de recuperar pacientes antes considerados intratáveis 6 . Dentre os imunomoduladores, destacam-se os análogos da purina: a 6-mercaptopurina (6-MP) e seu precursor, a azatioprina (AZA) 7 . As principais indicações para o tratamento com estas drogas incluem: dependência ou refratariedade aos esteróides; tratamento da doença fistulizante; e, possivelmente, prevenção de recorrência pós-opera- tória 8 . Ambos os agentes podem ser usados nestes casos com a escolha geralmente baseada na experiência prévia do clínico. Entretanto, o uso da AZA/6-MP pode apresentar várias reações adversas, algumas idiossincrásicas e outras dose-dependentes, as quais podem limitar o seu uso mais amplo 9 . Ao prescrever estas drogas, portanto, é imperioso compreender sua potencial toxicidade e monitorar adequadamente os pacientes para garantir sua segurança e eficácia 10 . Recentemente, um estudo realizado em nosso meio, avaliando os resultados no longo prazo do tratamento da DC com AZA 11 , porém enfocando especificamente o grupo de pacientes córtico-dependen- tes, observou a relativa segurança da droga neste subgrupo de pacientes. Não obstante, poucos dados na literatura nacional são disponíveis a respeito da segurança da AZA no tratamento da DC, particularmente em estudos prospectivos longitudinais. Assim, os obje- tivos do presente estudo foram avaliar a incidência, evolução e aborda- gem dos efeitos adversos da AZA em pacientes portadores da DC. MÉTODOS Foram incluídos todos os pacientes com DC em uso de AZA acompanhados no Centro de Doenças Inflamatórias Intestinais do Serviço de Gastroenterologia do Hospital Universitário – Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, durante o período de janeiro de 2002 a dezembro Artigo Original *Correspondência: Rua Cel. Júlio Soares, 343 Ubá - MG CEP 36500-000 Tel. (32) 3531-5574 marciavcolli@yahoo.com.br TOXICIDADE DA AZATIOPRINA NA DOENÇA DE CROHN: INCIDÊNCIA, ABORDAGEM E EVOLUÇÃO MÁRCIA VALÉRIA COLLI*, THALITA AMARAL AMARO, ANDRÉ LUÍS T AVARES PINTO, PEDRO DUARTE GABURRI , J ÚLIO MARIA FONSECA CHEBLI Trabalho realizado no Centro de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG.