165 ARTIGO QUE COMPÕE O LIVRO TEORIAS E PRÁTICAS SOCIOLÓGICAScom a organização de Elaine da Silveira Leite; Guilerme Massau e Willian Hector Gomez Soto. Editora Max Limonad. Ano 2016. 259p. Quando outros atores vão às ruas: as manifestações de Junho de 2013 e suas múltiplas influências políticas Sérgio Botton Barcellos 1 RESUMO Em junho de 2013 manifestações populares eclodiram em inúmeras cidades do Brasil tendo como uma das principais questões mobilizadoras o aumento geral do valor das passagens de ônibus. Não foram poucos os setores da sociedade e grupos políticos que ficaram surpresos diante das inúmeras e grandiosas manifestações convocadas pelas redes sociais e a ampliação dessas reivindicações para questões sociais como o desemprego, a inflação, a violência urbana e rural. Sob essa perspectiva, o objetivo desse ensaio é discutir e trazer à tona as possíveis influências históricas e políticas sobre essas manifestações que ocorreram em 2013, inclusive as marchas internacionais antiglobalização e movimentos mais recentes como a Primavera Árabe, o Ocuppy Wall Street e o SlutWalk. Desse modo, serão trazidos alguns elementos para o debate dessas manifestações a partir de um dos muitos pontos de vista disponíveis para estimular a reflexão relativa às influências e múltiplas interpretações sobre os movimentos sociais no Brasil. Palavras chave: diversidade política, cultura política, manifestações, junho 2013. APRESENTAÇÃO Atualmente é comum ouvir e ler comentários na opinião pública 2 , mesmo que tímidos, sobre uma “onda conservadora” que está pouco a pouco se formando e ganhando corpus político no Brasil. Ao mesmo tempo, não se pode negar um nítido cerceamento e repressão das manifestações políticas nas ruas, revoltas contra os constantes abusos policiais em comunidades e favelas nas grandes cidades, e, por outro lado, sem repressão alguma, mobilizações em defesa do governo eleito recentemente e as que reivindicam o impeachment da presidente Dilma. Ou seja, em meio a esse contexto de disputa política, vivenciamos uma realidade com diversas nuances sociais em destaque. Do mesmo modo, as ações do Estado e dos diversos movimentos sociais não podem ser consideradas estritamente antagônicas, apesar de conflituosas, pois surgem em um cenário de interdependência e são fruto de um contexto mais amplo, que é influenciado pelo atual momento histórico e pelo arranjo de forças do capitalismo no Brasil e no mundo, com reverberações socioculturais no campo da política. Em um tempo recente - e com destaque após as manifestações de junho de 2013 -, pelas ruas de diversas cidades do Brasil, pessoas, organizações e movimentos sociais se reagrupam e tentam se organizar politicamente com táticas e estratégias (re) atualizadas e que são acionadas em um tempo histórico recente, enquanto outros estão iniciando sua atuação política em atos públicos na rua. 1 Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPEL. Doutor em Ciências Sociais pelo CPDA/UFRRJ. 2 A ideia de opinião pública está ancorada aqui em Habermas. Ele a considera como uma possível deterioração da rede comunicativa por ser algo formulado por “opiniões comuns” e um debate racional, desconsiderando uma série de aspectos subjetivos, entre cidadãos (HABERMAS, 1983).