CARLOS FRANZATO O desenvolvimento das teorias ecológicas avan- ça sobre as bases do pensamento sistêmico. Uma das principais contribui- ções desta corrente epistemológica é “ter posto no centro da teoria, com a noção de sistema, não uma unidade elementar discreta, mas uma unidade complexa, um ‘todo’ que não se reduz à soma de suas partes constitutivas” (MO- RIN, 2011, p. 20). Desde Descartes, a tradição científica moderna havia proce- dido reduzindo a realidade em partes cada vez menores, medin- do suas propriedades intrínse- cas e formulando as leis univer- sais que regram as relações cau- sais lineares entre partes consi- deradas isoladamente. O pensamento sistêmico não se concentra sobre as partes e sua medição, mas sobre as múl- tiplas relações que organizam as diversas partes em sistemas coerentes: interações e retroações que, seguindo esque- mas não lineares, mas de rede, conectam as partes e, assim, ge- ram o enredo do sistema e seus processos característicos (Fri- tjof CAPRA, 2012). O estudo dos esquemas de fe- nômenos físicos caóticos, como os vórtices, e, sobretudo, dos es- quemas que subtendem à vida dos organismos revela a comple- xidade que os sistemas podem possuir. Tratam-se de sistemas abertos que necessitam receber fluxos materiais e energéticos pa- ra existir e de devolver, por sua vez, os resíduos decorrentes de seus processos organizacionais. Dessa forma, não é o equilí- brio, mas o desequilíbrio que mantém tais sistemas. Sua exis- tência ocorre nas trocas com ou- tros sistemas e com o meio-am- biente. Assim, evidenciamos ou- tro enredo de múltiplas relações inter-sistêmicas que organizam os diversos sistemas em um siste- ma de sistemas, o ecossistema. O homem faz parte do ecos- sistema e sua ação transfor- ma-o sensivelmente. Especial- mente a partir da industrializa- ção, seu desenvolvimento che- gou a ameaçar o equilíbrio ou, melhor, o desequilíbrio que ga- rante sua vitalidade. O conceito de sustentabilida- de é ligado à ação transformado- ra dos ecossistemas pelo homem. Segundo a declaração do Rio, é característica desses processos de desenvolvimento que, ao pas- so que possibilitam às gerações presentes o alcance de seus obje- tivos, garantem às gerações futu- ras as mesmas oportunidades: “O direito ao desenvolvimento de- ve ser exercido de modo a permi- tir que sejam atendidas equitati- vamente as necessidades de de- senvolvimento e de meio ambien- te das gerações presentes e futu- ras” (UNCED, 1992, p. 2)**. A sustentabilidade é o cami- nho que o homem deveria se- guir. O uso do condicional é obri- gatório, pois é evidente a insus- tentabilidade passada, presente e plausivelmente futura, dos nos- sos padrões de desenvolvimen- to, como relata o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, com roteiro de Al Gore (Davis GUGGENHEIM, 2006). Hoje temos consciência da fragilidade do nosso ecossiste- ma ambiental, social e econômi- co (WEF, 2015)****. Nossas cida- des são sistemas especialmente frágeis e expostos a calamida- des, nem sempre imprevisíveis. O escritório das Nações Unidas para redução de Riscos e Desas- tres (UNISDR, 2012, p. 9)***, en- tre os principais fatores respon- sáveis pelo risco das áreas urba- nas, inclui: O crescimento das popula- ções urbanas e o aumento de sua densidade; A concentração de recursos e capacidade em âmbito nacional, em detrimento do âmbito local; A governança local fragili- zada e a insuficiência da parti- cipação no planejamento e gestão urbana; A gestão dos recursos hídricos, dos sistemas de dre- nagem e de resíduos sólidos inadequada; O declínio dos ecossistemas, devido às atividades humanas; A deterioração da infraestru- tura e padrões de construção in- seguros; Os serviços de emergência descoordenados; Os efeitos adversos das mu- danças climáticas. Disso, emerge a necessidade de elaborar e atuar estratégias para a construção de uma cida- de resiliente. O termo resiliência é relativo à capacidade de um sistema de resistir em condições críticas e de se adaptar conse- quentemente. O planejamento e a gestão das cidades não parecem ser su- ficientes para construir uma ci- dade resiliente. As cidades de- vem aprender a agir em tempo real nas diversas situações, in- clusive nas mais adversas, com competências projetuais e atitu- de criativa. O projeto da cidade contemporânea é tratado no do- cumentário “Urbanized”, por Gary Hustwit (2011). Ainda, os documentários “Mind the gap” (Laura J. LUKITSCH, 2013) e “Growing Cities” (Dan SUS- MAN, 2013) relatam a possibili- dade de projetar alternativas, respectivamente, nos transpor- tes urbanos e no sistema de pro- dução, distribuição e consumo dos alimentos. O guia elaborado pelo UNIS- DR propõe um método de planeja- mento, gestão e projeto que visa justamente à construção de cida- des mais resilientes (2012). Outra contribuição relevante é fornecida pelo programa “100 Resilient Ci- ties”, da Rockefeller Foundation, que financiou a concepção de um instrumento com o mesmo propósi- to (ARUP, 2015). Analisando os do- cumentos dessas duas iniciativas, podemos individualizar alguns princípios estratégicos para a construção de cidades resilientes: Sustentabilidade: uma cidade resiliente deve se organizar pa- ra conseguir sua sustentabilida- de e a de seu ecossistema, espe- cialmente como forma de man- ter os desequilíbrios ecossistêmicos dentro dos limi- tes críticos; Adaptabilidade: uma cidade resiliente deve evoluir junto a seu ecossistema, com flexibilida- de; Robustez: uma cidade resi- liente deve aprimorar a eficiên- cia de seus processos e se forta- lecer; Valorização dos recursos: uma cidade resiliente deve valo- rizar seus recursos e os de seu ecossistema, reconhecendo a in- teligência que é própria de seus processos de organização; Autonomia: uma cidade resi- liente deve operar com autono- mia e valorizar a autonomia de suas comunidades e dos ci- dadãos; Integração: uma cidade resi- liente deve reconhecer as rela- ções de interdependência que co- nectam suas partes e procurar sua integração. Diversidade: uma cidade resi- liente deve reconhecer e promo- ver a diversidade, bem como as alternativas processuais e a ino- vação que dela derivam; Redundância: uma cidade resi- liente deve implementar diversas alternativas infraestruturais e pro- cessuais, de forma que sua vitali- dade seja garantida no caso de fa- lhas de alguma parte sua; Distribuição: uma cidade resi- liente deve distribuir sua infraes- trutura e processo, de forma que sua vitalidade seja garantida no caso de falhas localizadas; Participação: uma cidade resi- liente deve incentivar a inclusão e a participação dos diversos atores que compõem sua estru- tura social, garantindo seu en- volvimento na tomada de deci- sões e no compartilhamento dos objetivos; Colaboração: uma cidade resi- liente deve elaborar processos colaborativos de planejamento, gestão e projeto; Responsividade: uma cidade resiliente deve saber reagir às emergências decorrentes de ca- lamidades naturais ou da explo- são de problemas sociais; Reflexividade: uma cidade re- siliente deve saber refletir criti- camente sobre sua evolução e assim aprender; Responsabilidade: uma cida- de resiliente deve responsabili- zar seus líderes e os profissio- nais que assumem a competên- cia de seus processos, ao passo que desenvolve a responsabilida- de social dos cidadãos. Uma cidade resiliente deve in- corporar esses princípios na prá- tica cotidiana de seus proces- sos, especialmente de seus pro- cessos de planejamento, gestão e projetos estratégicos. Dessa forma, aumentará sua capacida- de de agir no seu dia a dia, co- mo na frente de emergências. Como foi antecipado, o desequilí- brio garante a vitalidade dos sis- temas abertos, como os siste- mas urbanos. Para além de cer- tos limites críticos, porém, o de- sequilíbrio se torna ameaça. Uma cidade resiliente é uma ci- dade que aprende a enfrentar essa incerteza que é própria ao desequilíbrio dos ecossistemas. * Designer, é professor e pesquisa- dor do PPG em Design da UNISI- NOS. Organizador do Simpósio Bra- sileiro de Design Sustentável. ** “Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento” *** “Como Construir Cidades Mais Resilientes”, Genebra: UNISDR, 2012. **** “Riscos Globais: mapas dos riscos globais”. Nova Iorque, 2015. CADERNO DE SÁBADO 1ª VIRADA SUSTENTÁVEL Cidade resiliente (estratégia no espaço urbano) De 31 de março a 3 de abril, a Capital recebe a 1ª Virada Sustentável; professor aborda tema das cidades CP MEMÓRIA “Uma cidade resiliente é uma cidade que aprende a enfrentar essa incerteza que é própria ao desequilíbrio dos ecossistemas” 2 | SÁBADO, 26 de março de 2016 CORREIO DO POVO