VII Encontro Nacional de Interação em Linguagem Verbal e Não-Verbal I Simpósio Internacional de Análise de Discurso Crítica A ÉTICA (MENTIRA) E A ESTÉTICA (IRONIA) DO DISCURSO POLÍTICO NA MÍDIA Jair Antonio de Oliveira Universidade Federal do Paraná – UFPR Resumo Os termos "ironia" e "mentira" são empregados indiscriminadamente como designações nos discursos políticos, contrariando a idéia de "transparência jornalística". Em uma perspectiva pragmática, propomos uma "ecologia lingüística" para esclarecer ao leitor/espectador a intenção comunicativa de tais usos e evitar que os relatos se transformem em uma seqüência de fórmulas prontas (clichês) aptos a constar em toda e qualquer circunstância noticiosa. Palavras-chave: Discurso Político; Mídia; Pragmática; Ecologia Lingüística. 0. Introdução O que interessa aos leitores/espectadores e merece ser pauta jornalística para o dia seguinte? Esta pergunta tem sido feita e respondida das mais diversas maneiras. A resposta tradicional - que já se transformou em clichê- é a seguinte: se um cão morde um carteiro, isto não é notícia. No entanto, se um carteiro morde o cão, isto é notícia. O critério para a escolha de um fato como pauta é o inusitado da situação, o cômico, o conflito. O embate entre o "irracional", o cão, treinado para atacar aos que entrarem em seu espaço e o pretenso ser "racional", o homem, que repete o animal no labirinto behaviorista da cidade para entregar correspondências, é notícia. Obviamente, tal resposta peca pela simplicidade; mas é necessária para direcionar a nossa reflexão. Foram-se os tempos de jornalismo romântico e aventureiro: o repórter que ingressa na selva para achar Livingstone perdido ou encontrar o Santo Graal, não existe mais. Como observou Max King, do Philadelphia Inquirer: " Somos absorvidos pela pressão comercial e os lucros e perdas no balanço anual"( apud Kovack; Rosenstiel, 2003:19). Temos um jornalismo baseado no mercado onde a noção de comunidade – no sentido político ou cívico- faz pouco sentido. A geografia que interessa aos diretores da empresa jornalística é a da localização estratégica do setor comercial no organograma e a quantidade de recursos disponíveis pelos anunciantes: o que determina o grau de influência do cliente na elaboração do que é notícia ou é simplesmente "apagado". Apagar não quer dizer omitir, suprimir; mas recontar o acontecimento de outra maneira: o que era relevante transforma-se em mero side, mitigado, na terceira página do caderno "Cidade". Com esse cotidiano para as redações, é de se esperar que os leitores de jornais se comportem como verdadeiros "carneiros de panurgio" 1 . Mas este tipo de imprensa não reflete o mundo em sua diversidade. Embora os indivíduos estejam submetidos a uma lógica do mercado e o consumo seja o objetivo que determina comportamentos, as pessoas são simplesmente mais complexas do que as categorias e estereótipos que são criados para elas. Seguindo os ensinamentos de Dave Burgin (1980), há três tipos de público leitor: o envolvido, 1 Panurgio, personagem do Pantagruel de Rabelais. Tendo sido injuriado por um certo Dindenaut, negociante de carneiros, e querendo vingar-se dele, Panurgio, que conhecia o espírito de imitação desses animais, comprou-lhe um e atirou-o ao mar. Os outros carneiros precipitaram-se atrás deste e o próprio Dindenaut foi arrastado pelo último, afogando-se com todo o seu rebanho. A expressão "carneiro de panurgio" passa a designar os que procedem por espírito de imitação.