1 “Heidegger, a essência da técnica e as fábricas da morte: notas sobre uma questão controversa” André Duarte Neste artigo discute-se a relação estabelecida por Heidegger entre a “essência da técnica” moderna e o fenômeno do extermínio tecnológico levado a cabo pelo nazismo, tomando como objeto de análise o ensaio intitulado A questão da técnica (Die Frage nach der Technick), de 1953, e as conferências “O Perigo” (Die Gefahr) e “A Armação” (Das Gestell), de 1949. Estes textos constituem uma oportunidade para avaliar o potencial e os limites do pensamento heideggeriano em sua dimensão ética e política, bem como constituem o eixo em torno do qual gravitam acirrados debates entre os seus intérpretes. Para alguns, tais como Caputo, Bernstein, Habermas, entre outros, o pensamento de Heidegger teria consentido no horror, tanto mais que, nas raras oportunidades em que o filósofo se pronunciou sobre o extermínio, ele o teria reduzido a apenas mais uma das manifestações da técnica moderna, entre tantas outras. Neste texto, proponho uma leitura alternativa às tendências críticas vigorantes nos debates contemporâneos sobre o pensamento heideggeriano, desenvolvendo os seguintes argumentos: a) o pensamento da “verdade do ser” e o questionamento da essência do humano não assumem o estatuto de especulação abstrata e desinteressada, desprovida de qualquer preocupação e cuidado para com o destino fático do humano em um mundo que se tornou cada vez mais inóspito; b) seu pensamento radical visa a raiz ontológica de onde provêm as misérias deste século tecnológico: o esquecimento do esquecimento do ser e o encobrimento da própria essência do humano. Nesse sentido, o pensamento heideggeriano foi capaz de detectar as bases metafísicas do projeto voluntarista de dominação total do mundo, para o qual não é nada gratuito que os nazistas tenham empregado a destruição tecnológica da humanidade do homem; c) Heidegger não afirmou a identidade histórica entre as fábricas da morte e outras manifestações tecnológicas do presente, mas apenas que todas elas tinham a mesma raiz historial, pois vieram a ser a partir de uma mesma essência, de um mesmo modo do desvelamento que vige e rege nossa época, o qual nos ameaça concretamente com perigo da desessencialização do homem e da devastação da Terra; d) na conferência intitulada “O Perigo”, Heidegger reflete sobre as vítimas do genocídio e o terrível processo de desumanização que aí atingiu o seu ápice, ao afirmar que nas fábricas da morte já não são mais os homens que morrem, mas apenas se trata aí do simples material para a permanente “fabricação de cadáveres”, expressão que também fora empregada por Hannah Arendt em suas análises sobre o totalitarismo; e) por fim, argumento que o conceito de Bestand, “fundo de reserva”, tal como referido por Heidegger às vítimas do genocídio e explicitado em A questão da Técnica, elucida os aspectos fundamentais do próprio extermínio. O conceito heideggeriano de “fundo de reserva” atinge o cerne do problema na medida em que explicita que as fábricas da morte estão para além da mera articulação de meios e fins: nelas, os homens deixaram de ser “objetos” à disposição de um “sujeito” para se tornarem simples recurso material disponível para qualquer agenciamento, pouco importando se se tratava de sua própria aniquilação. Poucas questões prestam-se a tantas controvérsias quanto a discussão da relação entre a concepção heideggeriana da essência da técnica moderna e suas poucas afirmações Prof. Dr. Do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná – UFPR.