* Doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF). Sem-vergonhices, descaramentos e safadezas na obra de Marcelino Freire Helder hiago Maia * “Eu quero, no que eu escrevo, fazer o que izeram os artistas que admiro. Jogaram merda no ventilador. Eu quero dar a minha contribuição ao desconforto”. Marcelino Freire Marcelino Freire nasceu em 1967, numa pequena cidade do agreste pernambucano chamada Sertânia. Filho de retirantes, mi- grou para Paulo Afonso e Recife, até fazer de São Paulo seu lugar de produção. Simbolicamente, entretanto, sua literatura circula tanto pelo agreste nordestino quanto pelas grandes cidades; tanto pelo morro quanto pelo asfalto. Revisor, escritor, agitador cultural, ex-estudante de Letras, Marcelino faz da palavra seu lugar de produção artística e de sobre- vivência material. Escreve para se vingar e para gerar desconforto, como costuma dizer; faz de suas inserções no mundo literário uma possibilidade de, por meio do afeto, da arte e da violência, não só tornar visíveis aqueles historicamente marginalizados e silenciados, mas de, a partir da marginalidade, perturbar os códigos das políticas assimilacionistas do paternalismo, da governabilidade que produz estatísticas, das normas que regem nossas etnias, nossos gêneros e nossas sexualidades.