LIMA REZENDE, Gabriel S. S. Narratividade e poder: sobre a construção da “história oficial” do choro. Música Popular em Revista, Campinas, ano 3, v. 2, p. 65-96, jan.-jun. 2015. 65 Narratividade e poder: sobre a construção da “história oficial” do choro * GABRIEL SAMPAIO SOUZA LIMA REZENDE ** RESUMO: Neste artigo discuto a formação da “história oficial” do choro e sua reprodução em trabalhos recentes produzidos, sobretudo, em âmbito acadêmico. Para tanto, valho-me de uma pequena narrativa que condensa as principais etapas de formação do gênero consagradas nessa história para demonstrar como elas foram historicamente sedimentadas na bibliografia. Em seguida reflito, a partir das relações entre narração e poder, como essa narrativa hegemônica se vincula a uma determinada concepção de História. PALAVRAS-CHAVE: choro; “história oficial”; narratividade e poder Narrativity and power: on the construction of choros history ABSTRACT: In this paper I discuss de conformation of an “official history” of choro and it’s reproduction in recent works produced, above all, in the academic realm. To this end I make use of a small narrative that condenses the main stages of choro's formation consecrated in this story to demonstrate how they were historically sedimented in the bibliography. In following, I present some considerations on how this hegemonic narrative is linked to a particular conception of History by focusing on the relations between narrativity and power. KEYWORDS: choro; “official history”; narrativity and power * Este texto é um extrato da minha tese de doutorado, que foi defendida em 2014 com o título de “O problema da tradição na trajetória de Jacob do Bandolim: comentários à história oficial do choro” , e está em processo de revisão para publicação. A tarefa que ele pretende cumprir realizar um exame crítico de momentos centrais da construção de uma narrativa hegemônica sobre a história do choro é, em aparência, semelhante à empreendida por Pedro Aragão em sua tese de doutorado (2010). Entretanto, a perspectiva que apresento neste artigo responde a problemas teóricos diferentes daqueles que informam a reconstrução de Aragão. Essa diferença fundamental, que também se expressa nos marcos teóricos referencias de cada trabalho, pode, de maneira muito sintética, ser resumida da seguinte maneira: enquanto o autor de “O Baú do Animal” se preocupa em atualizar os elos de continuidade que garantem a continuidade de uma determinada narrativa sobre a história do choro, eu busco colocar em evidência a relação entre essa continuidade e o poder. ** Gabriel Sampaio Souza Lima Rezende é Doutor em Música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do curso de Música da Universidade Federal da Integração Latino- americana (UNILA). Desenvolve pesquisas nas áreas de música popular, sociologia da música e sociologia da cultura. E-mail: gabriel.rezende@unila.edu.br