Versão online: http://www.lneg.pt/iedt/unidades/16/paginas/26/30/125 Comunicações Geológicas (2012) 99, 2, 43-51
ISSN: 0873-948X; e-ISSN: 1647-581X
Contribuição de traçadores geoquímicos e isotópicos para a
avaliação das águas termais das Caldas da Rainha
Contribution of geochemical and isotopic tracers to the assessment
of Caldas da Rainha thermal waters
J. M. Marques
1*
, H. Graça
2
, H. G. M. Eggenkamp
1
, P. M. Carreira
3
, B. Mayer
4
, D. Nunes
3
Recebido em 19/10/2011 / Aceite em 12/01/2012
Disponível online em Janeiro de 2012 / Publicado em Dezembro de 2012
© 2012 LNEG – Laboratório Nacional de Geologia e Energia IP
Resumo: Este estudo teve como objectivo proceder à avaliação das águas
termais das Caldas da Rainha. Foi aplicada uma abordagem
multidisciplinar, envolvendo técnicas da geoquímica convencional, da
hidrologia isotópica (
18
O,
2
H,
13
C,
3
H,
14
C,
34
S
(SO4)
e
18
O
(SO4)
) e da
geotermometria. Os resultados obtidos indicam que a área recarga do
sistema hidrotermal das Caldas da Rainha deverá localizar-se nas
formações geológicas localizadas no bordo W da Serra dos Candeeiros.
As águas de origem meteórica infiltram-se e escoam subterraneamente ao
longo do sinclinal de A-dos-Francos. Ao longo do seu percurso
subterrâneo irão adquirir temperatura relativamente elevada (60 ºC, com
base nos resultados da geotermometria) promovendo a interacção água-
rocha e a dissolução das rochas carbonatadas e evaporíticas (gesso e
halite). Os resultados obtidos indicam igualmente que as águas termais
das Caldas da Rainha se encontram “isoladas” pelas camadas aflorantes
do Jurássico Superior.
Palavras-chave: águas termais, origem dos sulfatos, modelo conceptual,
Caldas da Rainha.
Abstract: The main objective of this study was to assess Caldas da
Rainha thermal waters. We applied a multidisciplinary approach,
involving conventional geochemical techniques, isotope hydrology (
18
O,
2
H,
13
C,
3
H,
14
C,
34
S
(SO4)
e
18
O
(SO4)
) and geothermometry. The
results obtained indicate that the recharge area of the hydrothermal
system of Caldas da Rainha should be located in the geological
formations located on the W edge of the Serra dos Candeeiros. The
waters of meteoric origin, and infiltrate and have their underground flow
along the A-dos-Francos syncline. Throughout their underground flow
paths they will acquire relatively high temperature (60 ºC, based on the
results of geothermometry) promoting water-rock interaction and
dissolution of carbonate and evaporitic rocks (gypsum and halite). The
results obtained also indicate that the Caldas da Rainha thermal waters
are "isolated" by the Upper Jurassic geological formations.
Keywords: thermal waters, origin of sulphates, conceptual model, Caldas
da Rainha.
1
Centro de Petrologia e Geoquímica do Instituto Superior Técnico, Av. Rovisco
Pais, 1049-001 Lisboa, Portugal.
2
Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, Rua Diário de Notícias, 2500-176, Caldas
da Rainha, Portugal.
3
Instituto Tecnológico e Nuclear, Estrada Nacional nº 10, 2685 Sacavém, Portugal.
4
University of Calgary, Department of Geosciences, 2500 Univ. Drive NW,
Calgary, Alberta, Canada, T2N 1N4.
*Autor correspondente / Corresponding author: jose.marques@ist.utl.pt
1. Introdução
Foi Charles Lepierre o autor da frase: “proporcionalmente à sua
superfície e à sua população, Portugal é um dos países mais ricos
do globo no que se refere ao número e variedade das suas fontes
termais” (Lepierre, 1930/31). Esta afirmação ainda hoje é
verdadeira, tanto mais que actualmente, em Portugal, a afluência
às Estâncias Termais tem vindo a sofrer um desenvolvimento
considerável, não apenas na vertente “Termalismo Clássico” mas
igualmente no sentido do “Bem-Estar Termal”. De salientar que
esta riqueza e variedade de georrecursos hidrominerais cedo foram
conhecidas dos povos que, ao longo da História, foram vivendo
neste rectângulo ocidental da Ibéria.
As águas termais são recursos geológicos que por definição
(Decreto-Lei n.º 90/90 de 16 de Março) deverão ser captados
bacteriologicamente puros na origem, sendo posteriormente
utilizados sem terem sido alvo de qualquer tratamento que lhes
possa vir a alterar a sua composição química característica.
Deste modo, a elaboração de um modelo conceptual de
circulação de uma água termal de determinada região deve
constituir um princípio basilar para futuros planos de perfuração
(com vista a captar águas termais com maior caudal e/ou
temperatura) e desenvolvimento (utilização das águas termais nas
suas mais diversas vertentes), chave para uma gestão eficaz dos
recursos que lhes garanta a respectiva sustentabilidade. Para tal,
muito contribuem os conhecimentos provenientes de diversas
Disciplinas das Ciências da Terra como a Geologia, a
Geoquímica, a Hidrogeologia e a Hidrologia Isotópica.
As águas termais têm a sua origem na precipitação
atmosférica (e.g., IAEA, 1981) que, infiltrando-se em
profundidade ao longo de acidentes geológico-
estruturais/tectónicos importantes (e.g., filões de quartzo, falhas,
etc.) vai adquirindo características físico-químicas peculiares
função da composição mineralógica das formações geológicas por
onde circula. De igual modo, a temperatura de emergência das
águas termais é função da profundidade a que estas circulam. Da
mesma forma, os processos de interacção água-rocha a
temperaturas consideráveis fazem com que a concentração em sais
minerais nas águas termais seja mais elevada do que a das águas
subterrâneas ditas “normais” da região envolvente.
A Hidrologia Isotópica desempenha um papel fundamental na
elaboração dos modelos hidrogeológicos conceptuais. A utilização
dos isótopos estáveis (oxigénio-18 e deutério -
18
O e
2
H) como
traçadores do fluxo subterrâneo das águas termais, desde as áreas
de recarga até aos locais onde emergem, reside no facto destes
isótopos fazerem parte integrante da molécula de água, e
apresentarem um carácter conservativo após infiltração da água da
chuva, nos casos em que a temperatura de interacção água – rocha
em profundidade não exceda os 100 ºC (IAEA, 1981): estamos
pois a utilizar a própria água para escrever “o livro da sua
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