1 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO MEDO DO CRIME NO BRASIL PUBLICADO EM: GIAMBERARDINO, A. R.. A construção social do medo do crime e a violência urbana no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 115, p. 200, 2015. ANDRÉ RIBEIRO GIAMBERARDINO SUMÁRIO -. 1. Introdução. 2. A dimensão política e subjetiva da insegurança: aspectos teóricos. 3. O medo do crime no Brasil (PNAD 2009). 4. Medo do crime e violência urbana na criminologia. 5. Sobre a ‘nova prevenção’. 6. Considerações finais. 7. Referências bibliográficas. 1. Introdução A redução da insegurança, enquanto noção eminentemente subjetiva, inicia pela desmitificação da perspectiva que lê a realidade a partir do medo, tomando-se este próprio como objeto de problematização. Fica claro, por tal via, como é o próprio discurso que constrói o pânico social que atua contra o Estado de Direito e inviabiliza quaisquer espaços coletivos de convivência saudável e pacífica. Temas como medo do crime e (in)segurança devem ser tratados de forma contextualizada. Não se pretende abordar aqui, afinal, uma noção de segurança pressuposta como “problema natural” das sociedades humanas. O que se quer tomar como objeto de reflexão é a concepção própria da sociedade ocidental pós-industrial e seus desdobramentos, que assumem caracteres bastante específicos e distantes dos tempos em que “estar seguro” se relacionava a um status de cidadania diretamente vinculado, por sua vez, ao vínculo de pertencimento com a cidade 1 , verdadeiro “corpo” enquanto comunidade política 2 . O “medo” se dirigia, então, ao que estava para além de seus muros. A questão securitária em suas feições modernas deve ser compreendida sob a égide de duas passagens decisivas, não obstante distantes quase dois séculos entre si e aqui apenas mencionadas. Na primeira, tem-se a a ruptura para com a tradição medieval pelo 1 COSTA, Pietro. Cittadinanza, p. 7 e ss. Sobre a “história do medo”, v. DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente: 1300-1800 Uma Cidade Sitiada. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia. das Letras, 2009 [1978] 2 COSTA, Pietro. Cittadinanza, p. 18: “La città è uno spazio di appartenenza, identità e protezione: le mura (che ne segnano e ne garantiscono i confini) ne sono la traduzione fisica e il simbolo visibile. (...). La città è un corpo che vive della collaborazione delle parti: il conflitto non può essere quindi che un’intollerabile patologia”.