A clonagem na mídia e na visão de estudantes do ensino médio Carolina Ramkrapes 1 Enio Rodrigo Barbosa 2 , Flavia Natércia da Silva Medeiros 3 e Antonio Carlos Rodrigues Amorim 4 . Resumo Este artigo se propõe a analisar semelhanças e diferenças entre as informações sobre clonagem e células-tronco veiculadas na mídia impressa e as percepções que estudantes do ensino médio expressaram em duas sessões de grupo focal realizadas numa escola pública da cidade de Campinas. Como acontece na mídia, a discussão sobre células-tronco pareceu caminhar por um fio tênue, uma “corda bamba” entre a necessidade de proteger a vida humana e as promessas médicas de regeneração, cura ou imortalidade. Já na discussão da clonagem, os alunos abordaram dimensões como a social e a afetiva, pouco exploradas pela mídia. O fato de as biotecnologias entrarem no currículo escolar contextualizadas como ‘tema polêmico’ pode explicar as tendências das tomadas de decisões pelos estudantes. Introdução As biotecnologias ditas “modernas” nasceram na década de 1970, durante a qual foram predominantemente encaradas como áreas de pesquisa promissoras. Exceção feita aos anos de controvérsia sobre o DNA recombinante e o nascimento do primeiro bebê de proveta, na cobertura midiática também prevaleceram aspectos positivos ligados a aplicações das biotecnologias (Nisbet & Lewenstein, 2002; Grabner et al., 2001). Essa tendência se estendeu à década seguinte, na qual diversos produtos de finalidade terapêutica foram lançados por empresas de biotecnologia. Na segunda metade da década de 1990, porém, a situação mudou com a introdução da soja Roundup Ready na Europa (1996) e o anúncio do nascimento da ovelha Dolly (1997), clone genético de uma célula adulta – considerado primeiro feito biotecnológico a suscitar uma cobertura global e simultânea–. A partir de então, algumas das aplicações das biotecnologias têm sido objeto de duradouras controvérsias públicas, dentre elas a clonagem reprodutiva, a clonagem terapêutica e as células-tronco – as duas últimas introduzidas no noticiário e no debate público como aplicações potenciais e benéficas da transferência nuclear de célula somática–. Essas controvérsias tendem a girar em torno de três aspectos principais: regulação, segurança e estatuto moral (Grabner et al., 2001) Depois do anúncio por duas equipes do cultivo bem-sucedido de células-tronco embrionárias humanas, esses artefatos biotecnológicos atraíram atenção crescente por parte da imprensa e do público. No mundo, um pico de atenção em torno delas foi atingido em 2001, outro em 2004. No Brasil, elas também ganharam proeminência dentre as biotecnologias no debate sobre a Lei de Biossegurança em 2004 e em 2005, quando a lei foi sancionada e a fraude do veterinário coreano Woo-suk Hwang descoberta. Como acontece em relação a outros frutos das biotecnologias – por exemplo, os transgênicos –, a cobertura da clonagem e das células-tronco tende a ser polarizada, oscilando entre promessas de revolução ou milagre e pesadelos: exércitos formados por clones de Hitler, cura de doenças, pessoas criadas como depositórios de peças sobressalentes, instrumentalização da vida humana. 1 Laboratório Avançado de Estudos em Jornalismo (Labjor)/Unicamp. 2 Laboratório Avançado de Estudos em Jornalismo (Labjor)/Unicamp. 3 Laboratório Avançado de Estudos em Jornalismo (Labjor)/Unicamp. 4 Faculdade de Educação e Laboratório Avançado de Estudos em Jornalismo (Labjor)/Unicamp.