Controvérsia, São Leopoldo, v. 11, n. 3, p. 132-140, set.-dez. 2015. 132 Pensamento contrafactual e moralidade Counterfactual thinking and morality Eduardo Vicentini de Medeiros Faculdade IDC Universidade Federal do Rio Grande do Sul donvicentini@gmail.com http://lattes.cnpq.br/7122348041835817 Resumo O artigo apresenta e oferece justificativas para uma linha de pesquisa em andamento que relaciona experimentos da psicologia cognitiva e social sobre pensamento contrafactual e suposições sobre os processos cognitivos e emocionais envolvidos na formação do juízo moral. A ideia central é defender um papel funcional dos mecanismos psicológicos contrafactuais na formação do juízo moral. Palavras-chave Psicologia moral; Decisão; Pensamento causal. Abstract The article presents and offers justification for a work in progress research that links experiments in cognitive and social psychology of counterfactual thinking and assumptions about the cognitive and emotional processes involved in the generation of moral judgment. The central idea is to support a functional role of psychological counterfactuals mechanisms in the generation of moral judgment. Keywords Moral psychology; Decision; Causal thought. 1. Introdução Este artigo tem dois objetivos claramente delimitados: (a) apresentar e (b) justificar a relação entre mecanismos de pensamento contrafactual e juízos morais sobre nossas ações e decisões. Se ao final do artigo o leitor estiver convencido de que a proposta aqui esboçada pode trazer algum esclarecimento relevante sobre a formação do juízo moral, terei atingido os objetivos propostos, mesmo com uma importante ressalva: esse artigo não é o resultado de pesquisa já realizada, com resultados consolidados, mas a apresentação de um roteiro a ser executado. Meu misto de esperança e aposta é que o roteiro não acabe em becos sem saída. Quando deliberamos sobre a conveniência de uma decisão, seguidamente fazemos questões da forma: “e se eu tivesse decidido diferente?” Pensar em alternativas à realidade é um processo mental que opera não apenas em nossos juízos de valor, mas, especialmente, em nossos juízos sobre fatos e conexões causais entre fatos. No mais das vezes, pensamos em alternativas à realidade na forma de condicionais contrafactuais, que são, em última análise, juízos que expressam uma relação causal entre antecedente e consequente, com a peculiaridade do antecedente ser falso. Alguns exemplos podem ser úteis: a) Se eu tivesse estudado um pouco mais, os resultados teriam sido melhores. b) Se cangurus não tivessem caudas, tombariam. c) Se ela tivesse feito as malas pela manhã, não teríamos perdido o voo. d) Se eu tivesse comprado aquele livro, não estaria arrependido agora.