Colóquio Guiana Ameríndia História e Etnologia Belém, 31 de outubro a 2 de novembro de 2006 Organizadores: NHII-USP/EREA-CNRS/MPEG Notas sobre uma certa confederação guianense 1 Beatriz Perrone-Moisés DA-NHII/USP Esta comunicação nasceu da confluência entre um já (relativamente) antigo interesse pessoal pelas formas políticas ameríndias e a intensificação das relações com o grupo de pesquisadores coordenado pela Profa. Dominique Gallois, no NHII/USP, dedicado à região das Guianas. Propõe-se, aqui, apenas alinhavar algumas considerações que servirão de base para uma pesquisa mais minuciosa a respeito das formas políticas guianenses. Muitas dessas notas permanecem, por isso, em estado inicial, insuficientemente documentadas e/ou argumentadas, à espera de desenvolvimentos que sem dúvida se beneficiarão enormemente das sugestões e críticas dos demais participantes deste colóquio. Em 1769, um certo Claude Tony, acompanhando M. de Patris numa viagem de exploração pelo interior da Guiana, encontrou várias nações indígenas aliadas, sob a autoridade de uma "espécie de capitão geral" 2 . Alguns anos mais tarde 3 , Leblond não encontraria nada que se parecesse com a organização hierárquica descrita por Tony, e nenhuma marca de centralização numa miríade de pequenos grupos locais fisicamente isolados uns dos outros e independentes, que corresponde à imagem que mais tarde se tornou corrente para a região, e que tem sido debatida e revista por pesquisas nos últimos anos 4 . Essa "confederação guianense" é o tema desta comunicação. A defasagem entre o que Tony descrevia e o que foi observado na região em seguida pode ser interpretada de diferentes modos. A possibilidade de o relato "embelezar" a realidade observada, com o intuito de seduzir o leitor, de valorizar a colônia nascente ou ainda a própria aventura pessoal sempre existe; Tony teria simplesmente inventado (ou exagerado) o que descreve. Outra possibilidade, também sempre possível e comumente aventada, é a da perda: a notável organização teria simplesmente desaparecido, e a única explicação que se encontra para isso é um evento cataclísmico, a intensificação da guerra entre os grupos que a compunham ou o avanço da colonização (eventos, aliás, intimamente relacionados). Implodida pela guerra intestina ou dissolvida pela gravíssima perda demográfica dos grupos do interior, a organização supra-local não teria 1 Versão preliminar de comunicação proposta ao Colóquio "Guiana Ameríndia. História e Etnologia" (Belém, 31 de outubro - 2 de novembro 2006). 2 Tony [1769] 1840: 231. 3 Dez anos mais tarde, cf. Chapuis 1998:5. 4 Entre as quais, notadamente, aquelas reunidas em Gallois (org.) 2005.