Revista Mundos do Trabalho, vol. 2, n. 4, agosto-dezembro de 2010 p.336-352. O trabalho feminino sob o olhar estrangeiro Relatório de Mary M. Cannon ao Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, 1943 Glaucia Cristina Candian Fraccaro * A pesquisa em fontes históricas produzidas por representantes de países estrangeiros têm sido uma prática muito profícua para os historiadores sociais. Ao mesmo tempo em que essas fontes permitem problematizar o olhar estrangeiro sobre o Brasil, elas revelam aspectos da história do próprio país e fornecem mais elementos para a consolidação de uma perspectiva global da história da classe trabalhadora, capaz de, por exemplo, explicitar as conexões com o imperialismo 1 . Tendo isso em vista, apresento aqui um relatório assinado por Mary M. Cannon, representante Interamericana do Bureau de Mulheres do Departamento do Trabalho, em 1943, sobre o trabalho das mulheres e de menores no Brasil nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Fundado em 1920, o Bureau de Mulheres (Women´s Bureau) tinha como tarefa a formulação de padrões e políticas para promover o bem estar, o sustento das mulheres, assegurar melhores condições de trabalho e desenvolver políticas para garantir os interesses da mulher trabalhadora. O escritório foi criado pelo Departamento do Trabalho (Department of Labor) dos Estados Unidos, órgão que desde 1913 fomenta o desenvolvimento das relações de trabalho e cuida dos direitos dos trabalhadores. O desenvolvimento industrial da primeira metade do século XX, o fortalecimento da classe trabalhadora, e também de uma espécie de elite forjada nessas camadas, proporcionou um debate planetário sobre o trabalho. A fundação da Organização Internacional do Trabalho é resultado desse processo histórico e teve como objetivo concentrar as ideias e políticas que se davam nesse campo. Portanto, passou fazer parte do cotidiano de uma nação que se pretendia imperial que órgãos ligados ao governo dos Estados Unidos compilassem e formulassem informação sobre o mundo do trabalho de diversos países. Significa, portanto, que se tornava comum o * Mestre em História Social pela Unicamp e assistente técnica do Centro Sérgio Buarque de Holanda da Fundação Perseu Abramo. Contato da autora: galufraccaro@gmail.com 1 Marcel Van der Linden. História do Trabalho: o velho, o novo e o global. Revista Mundo Revista Mundos do Trabalho, v.1, n. 1, (2009), p. 10-26.