O texto bíblico redescoberto: notas sobre Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago 4 DE SETEMBRO DE 2015 / PEDRO SETTE-CÂMARA / 0 COMENTÁRIOS por Júlia Reyes Uma síntese (brutal) Quando Eu via Satanás Cair como um Relâmpago foi publicado, em 1999, o caminho reflexivo e teórico de René Girard já tinha sido pavimentado com seus três primeiros ―livros -evento‖ 1 : Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), A Violência e o Sagrado (1972) e Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978). Conceitos e questões propostas nesses três primeiros livros são retomados à luz do discurso religioso cristão, sem que a teoria mimética seja posta de lado. Desta vez, René Girard dialoga diretamente com os textos judaico-cristãos, especialmente com o Antigo Testamento e os Evangelhos. Neste livro, Girard apresenta uma leitura dos textos bíblicos sob a perspectiva da teoria mimética, destacando passagens e elementos-chave que iluminam etapas, elementos e aspectos do ciclo mimético. Em resumo, Girard oferece a seus leitores e leitoras uma perspectiva nova sobre os textos bíblicos, nos quais evidencia-se um conhecimento sobre o ciclo mimético e a intuição fundamental que nos permite escapar do contágio violento: o reconhecimento da inocência da vítima. Em seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), René Girard desenvolve sua primeira intuição: o caráter fundamentalmente mimético do desejo. Nesta fase, Girard lê romances de Cervantes, Flaubert, Stendhal, Proust e Dostoiévski, analisando as relações miméticas entre sujeitos e modelos presentes nas tramas de seus livros. Os escritores que apresentam personagens dotados de um desejo autônomo são considerados românticos, enquanto os escritores destacados por Girard são chamados de romanescos, por descobrirem que o desejo de um sujeito atua em função de um Outro, seu modelo, a quem ele admira e imita. Girard percebe, a partir do mimetismo do desejo humano, o aspecto sombrio da relação entre sujeito e modelo. Uma intensa admiração entre pessoas que estão espiritualmente próximas e se admiram (sujeitos e modelos) pode provocar sentimentos de rancor, de ciúme, de inveja, de ressentimento e, posteriormente, pode escalar para uma ação violenta em um contexto de vingança e hostilidade, pois sujeito e modelo passam a desejar os mesmos objetos e começam a disputá-los. Em uma próxima etapa, o objeto é esquecido e cede lugar à rivalidade entre sujeito e modelo, rivalidade que pode aumentar e levá-los a cometer atos extremos de violência. Essa violência pode escalar, ao ponto da rivalidade contagiar todo o grupo, fomentando e propagando uma violência generalizada que será extinta quando uma pessoa do grupo for escolhida como culpada. 2