ESTRANGEIRIDADE E EXPERIMENTAÇÃO: UMA CONVERSA COM PALOMA VIDAL Mediação: Patrícia Martinho Ferreira * Paloma Vidal Paloma Vidal nasceu em 1975 em Buenos Aires e, aos 2 anos de idade, mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde passou a infância e a juventude. Esse estar entre duas línguas e duas culturas marca profundamente sua produção literária. Desde a publicação, em 2003, do seu primeiro livro de contos, A duas mãos, suas temáticas literárias têm sido, em geral, as interferências entre culturas, lugares e gerações, o deslocamento e as vivências em trânsito, o necessário retorno ao passado e a recuperação da memória. Hoje, Paloma vive em São Paulo, é professora de Teoria Literária na Universidade Federal de São Paulo, crítica, tradutora, editora da revista Grumo e autora do blog Escritos Geográficos ”www.escritosgeograficos.blogspot.com ). Publicou ensaios acadêmicos, contos, poesia, teatro e dois romances: Algum lugar ”2009) e Mar azul (2012). Conversei com a escritora em agosto de 2015, em sua acolhedora casa, rodeada de muitos livros e saboreando uma xícara de café. Num dos textos que fazem parte de A duas mãos, você escreveu: “Serei a mulher que não dá nome aos seres para não sujeitá- los”. Gostaria que comentasse essa frase e falasse um pouco sobre o que a levou à escrita e o que pretende que a sua escrita seja. Paloma: Esse livro trabalha muito com a questão feminina, tem uma perspectiva da mulher que tem a ver com essa ideia de como se tornar sujeito em vez de ser sujeitada. Esse é um livro que nasce desse impulso de querer ter uma voz, de encontrar uma voz. E talvez essa questão de nomear de algum modo sirva para tentar limitar o que poderia ser aberto. Nesse livro tem muito a ideia de uma certa indefinição em relação às características das pessoas e dos lugares. Ele hoje me parece até um pouco estranho, por exemplo no fato de que em vários contos os espaços não são claramente determinados. O conto ȊA ver naviosȋ remete à minha avó e à cidade de Buenos Aires, mas tudo isso, a cidade e a geração, não é nomeado nunca. Houve uma mudança bem importante do primeiro livro [A duas mãos] para o segundo [Mais ao sul]. Foi como se essa busca precisasse ser mais específica, mais determinada por uma experiência singular, mais autobiográfica, mais ligada a certos acontecimentos, inclusive históricos, que determinaram justamente o fato de eu querer escrever, como se naquele momento esse impulso tivesse a ver com essa questão do feminino. Comecei escrevendo por uma sensação muito forte de que a voz da mulher tinha que ser conquistada de modo árduo. Depois fui entendendo que tinha de me apoderar daquilo de um modo mais particular, mais meu. Todos os contos desse primeiro livro têm essa questão, não só porque as personagens são mulheres, mas porque elas estão em situações frequentemente de assujeitamento. Eu diria que, de certa maneira, essas personagens estão como que aprisionadas ora a um casamento de longa duração, ora a uma espera de alguém que não vem. Paloma: Essa é uma questão curiosa. Esse livro [A duas mãos] foi apresentado por meio de uma bolsa da Biblioteca Nacional da qual a professora Beatriz Resende era jurada e, quando ela me conheceu, falou que achava que era um livro de uma mulher mais velha, e acredito que isso se relaciona com essa sensação de aprisionamento que pouco tinha a ver com uma menina mais nova e havia também umas personagens que eram mais velhas em situações meio sem saída. Ela se espantou muito. Nesse conto, onde está essa frase que você resgatou, ainda tem essa coisa do futuro. Não dá para entender essa frase senão nesse momento do meu processo. Na verdade, esse é um livro a que eu tenho voltado várias vezes, tenho uma relação de muito carinho por ele, por ter sido um momento de tentar, um momento de começar. Eu fiz análise por vinte anos com uma mesma analista para quem disse que tinham sido vinte anos para basicamente poder escrever. Esse livro e a minha análise estão muito relacionados. Não é muito fácil ter uma ideia do que você quer fazer e achar que pode mesmo fazer isso. A sua escrita trata fundamentalmente de viagens, deslocamentos, exílio, viver em trânsito. A ideia de ser estrangeiro, de estar sozinha numa cidade desconhecida, de não pertencer a lugar nenhum surge, por exemplo, tanto em Mais ao sul como em Algum lugar. Gostaria que falasse um pouco sobre a importância desses temas no seu trabalho.