Inovação e Desenvolvimento nas Actividades Marítimas, C. Guedes Soares e V. Gonçalves de Brito (Eds.), Edições Salamandra, Lisboa, 2006, (ISBN 978-972-689-232-8), pp. 617-632 LEVANTAMENTO DAS CARACTERÍSTICAS NÁUTICAS DE UMA NAU QUINHENTISTA N. Fonseca 1 , F. Vieira de Castro 2 e T. Santos 1 1 Unidade de Engenharia e Tecnologia Naval, Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa, Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa 2 Nautical Archaeology Program, Department of Anthropology, Texas A&M University College Station, TX 77843-4352 USA Resumo Neste trabalho apresenta-se uma metodologia para fazer a reconstrução de uma Nau Quinhentista e para avaliar o seu desempenho em termos de características náuticas, de segurança e habitabilidade. A metodologia a aplicar passa por combinar dados e resultados obtidos de quatro fontes, nomeadamente: textos coevos, incluindo tratados e regimentos de construção naval, vestígios arqueológicos, métodos de arquitectura e engenharia naval actuais e respectivos programas de computador, e, finalmente, ensaios experimentais com modelos à escala. A reconstrução, que inclui o levantamento das formas do casco, arranjo geral, estrutura e aparelho vélico e de manobra, baseia-se nos resultados da escavação dos vestígios arqueológicos da presumível nau da Índia Nossa Senhora dos Martíries afundada em 1606 na foz do rio Tejo. 1 Introdução Sabe-se muito pouco sobre os navios do período dos descobrimentos e expansão portuguesa. Embora os descobrimentos portugueses estejam muito bem estudados por investigadores nacionais e internacionais, que escreveram milhares de livros sobre este período, os veículos da expansão são-nos hoje ainda largamente desconhecidos. Pode-se afirmar que o estudo da arqueologia naval começou em Portugal na década de 1890, como reacção ao movimento intelectual impulsionado na vizinha Espanha pelas comemorações do quarto centenário do descobrimento da América por Cristóvão Colombo. Pioneiros como Lopes de Mendonça, Senna Barcelos, Sousa Viterbo, Quirino da Fonseca ou Estanislau de Barros, deram inicio ao estudo rigoroso e sistemático dos navios da expansão portuguesa, que foi continuado durante o século XX com o trabalho de um elevado número de especialistas, entre os quais se contam Alberto Iria, Frazão de Vasconcelos, Pimentel Barata, Contente Domingues, Leonor Freire Costa, ou Richard Barker (Domingues, 2004).