1 Referência: Maurício, G. N. & R. A. Dias. 2001. Distribuição e conservação da avifauna florestal na Serra dos Tapes, Rio Grande do Sul, Brasil. P. 137-158. In: J. L. B. Albuquerque, J. F. Cândido, Jr., F. C. Straube & A. L. Roos (eds.) Ornitologia e Conservação: da Ciência às Estratégias. Tubarão: Ed. Unisul. DISTRIBUIÇÃO E CONSERVAÇÃO DA AVIFAUNA FLORESTAL NA SERRA DOS TAPES, RIO GRANDE DO SUL, BRASIL. Giovanni N. Maurício¹ e Rafael A. Dias² ¹Laboratório de Ornitologia, Museu de Ciências e Tecnologia, PUCRS, Av. Ipiranga, 6681, C.P. 1429, 90619-900, Porto Alegre, RS, Brasil. ²Museu de História Natural, Universidade Católica de Pelotas, R. Félix da Cunha 412, C.P. 402, 96010-000, Pelotas, RS, Brasil. Abstract The little known avifaunal composition of the forests of the Serra dos Tapes is described in this paper. The study area is located in the extreme southern limit of the Atlantic forest domain, occupying the southern half of the Planalto Sul-Rio-Grandense or Serra do Sudeste (Southern Hills). Of the 99 bird species recorded during this study, 39 have their extreme austral limit of distribution in this area. Another eight species, unrecorded in the field but known from this area through other sources, also have their southern range limit in the area. Although the entire southern half of the Rio Grande do Sul State is included in the Pampas zoogeografic region by several biogeographic studies, the avifaunal and floristic composition of the forests of the Serra dos Tapes indicate that this area is an austral extension of the Brazilian Atlantic forest. The extreme degree of fragmentation of the forests in this area has caused regional extinction of some forest birds and probably threatens several other. The conservation of the forests in this area is regarded a regional priority, in order to preserve the most austral populations of several Atlantic forest endemic birds and to maintain the local biodiversity. Resumo A composição da avifauna das florestas da Serra dos Tapes é aqui descrita. A área de estudo localiza-se no extremo sul do domínio da Mata Atlântica, ocupando a metade meridional do Planalto Sul-Rio-Grandense ou Serra do Sudeste. Dentre as 99 espécies florestais registradas, 39 tem seus limites austrais de distribuição dentro da área de estudo. Oito espécies adicionais, não registradas em campo mas conhecidas da área através de outras fontes têm, igualmente, seus limites meridionais de distribuição na área em questão. Embora a metade sul do Rio Grande do Sul seja incluída na região zoogeográfica dos Pampas por vários estudos, a composição da avifauna das florestas da Serra dos Tapes indica que esta área é uma extensão austral da Mata Atlântica. O alto grau de fragmentação das florestas da região levou à extinção local algumas espécies de aves florestais e, provavelmente, ameaça a sobrevivência de várias outras. A conservação das florestas da região é necessária para garantir a preservação das populações mais austrais de várias espécies endêmicas à Mata Atlântica e para manter a biodiversidade regional. INTRODUÇÃO A avifauna florestal do Rio Grande do Sul tem sido amostrada principalmente na metade norte do Estado, onde diversos estudos foram realizados desde a escarpa meridional do Planalto das Araucárias até a região do alto rio Uruguai (e.g., Albuquerque 1981, 1983, Belton 1984, 1985, 1994, Bencke 1996, Bencke e Kindel 1999, Mähler 1996). Embora particularidades distribucionais envolvendo aves das florestas do leste e do sul do Estado tenham sido divulgadas por Ihering (1899) já no século XIX, poucos aportes ao conhecimento da avifauna das matas dessa última região foram publicados desde então. Araujo (1897), Ihering (1899), Pinto (1938), Belton (1984, 1985, 1994) e Maurício e Dias (1998, 2000) reportaram, isoladamente, a ocorrência de várias espécies florestais para o sudeste do